quinta-feira, 28 de março de 2013

O cão que não valia tostão


QUER VER uma coisa? Quer mais alegria, que a do pezinho de samambaia rodeado de irmãozinhos no barranco do corguinho, a se balançar o dia todo ao toque da barra da saia da água? Quer? E a alegria do Bigui, o bicho preguiça da menina Isabelita, que gastou um século pra chegar ao mamão madurinho, e agora está lá, vivendo só para o mamão? Quer? Eu quero: a alegria que toma conta do menino Pedrinho, quando eles vão para o sítio, é maior que toda alegria. É, mas é!
     Não dá nem pra contar nos dedos o que no sítio faz de Pedrinho alegria pura. Frutas e passarinhos, nó... Nem se fala! No rio ele pesca, dá de ponta e passeia de canoa; e na estradinha ele corre com Miúcha, a cadelinha da mãe dele. Ah, e o sol tira a manhã, parece, só pra vadiar sobre a estradinha. E mais: há a casinha de um velhinho do rio, na beira do rio, onde ele dorme, às vezes, pra ouvir as suas histórias. Ih, ainda tem a mata, imensa, cheia de bichos. É um ó, xap, xap, toc, toc, grrr, grrr, oúúú, dia e noite.
     E aí, na mata, cedinho, porque Pedrinho gosta de sentir o friozinho da mata no amanhecer, ele deu de cara com um cão deitado ao pé dum ipê; um cão fincado de carrapicho, e triste. Pedrinho olhou para ele, estalou dedos, e o cão, que se havia erguido, voltou a se deitar. “Ei! Qual o seu nome, hein? Você tem nome? Tá com fome é? Hã!? Não, você não tem tipo de mau... Venha! Vamos pra casa... Venha! Pode vir”.
     Mas, em casa, naquele dia e em todos: “Pedrinho, não!”, ralhou a mãe. “Tá vendo? A Miúcha... Olha aí: a Miúcha não quer esse pulguento aqui... E nem eu, nem o seu pai, nem ninguém.”. “Olha aí, como a Miúcha está estressada... Ah, não! Some com esse cão daqui, e já!”.
     Em quem Pedrinho confiou para que o cão dos matos pudesse ficar ali, no sítio, foi contra: “Tenho de sacrificar esse cão, filho. Sua mãe não o quer aqui, por causa da Miúcha... E ele não vai embora. Além disso, ele não vale tostão. Entenda meu filho: vou ter que matá-lo”.
     Matar o Ipê?!― Pedrinho chorou. ― E por falar em Ipê, onde ele se havia metido? “Há dois dias que não aparece aqui. Graças a Deus!”, disse a mãe. “E, por falar nisso, continuou a mãe, cadê a Miúcha?”. Foi um entra e sai, na estradinha: “Miúcha! Miúúúcha!”.
    Agora, nada de Ipê, nada de Miúcha, nada de Pedrinho. Ah, de Pedrinho sim; eles o ouviram gritar ao fundo do quintal.
     Acorreram aos gritos de Pedrinho e se estacaram junto a ele para assistir a uma imensa cobra, que, erguida, rodeava Miúcha, encantando-a. Estavam a uns piscares da morte de Miúcha. Aliás, eles estavam vírgula, porque, um corpulento animal inesperadamente saltou de dentes de fora sobre a cobra: foi o Ipê.
    Foi o Ipê que se enrolou com a serpente; que mordeu e repicou-a nos dentes; que a partiu ao meio; que a matou, salvando a pequenez Miúcha. Daí, fraco, Ipê se aproximou de Pedrinho e se deitou aos seus pés. Picado pela cobra, Ipê fechava e abria os olhos para Pedrinho até que os fechou para não mais abri-los.
     Agora, feche os olhos pra você ver Pedrinho sentado na beira do corguinho. Você o vê? De vez em quando ele faz assim: de saudade de Ipê, ele se senta aí, e fica a olhar para um pezinho de samambaia que, rodeado de irmãozinhos, fica a se balançar, o dia todo, ao toque da barra da saia da água.



Dedico essa historinha à amiga de Gerais, a prosista, a “causista”, a cronista Maria Mineira.

11 comentários:

  1. Ah, que final triste, Marcio! Em lágrimas... Beijo

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  2. Menino, vc me fez chorar...
    sabia q cuido de cachorrinhos de rua?
    beijos
    Izabel Christina

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  3. Marcio, saudades de ler você..Um conto emocionante!Você é encantador meu amigo, tem uma alma lindam e nunca deixem te dizerem ao contrário ta?
    Beijos e sorrisos...
    Patrícia (Flor Morenna)

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  4. Muito obrigada, Márcio. Eu me emociono com as suas histórias e depois não consigo ajuntar as palavras para fazer um comentário bonito.Grande abraço de sua amiga da Serra.

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  5. Nunca devemos negligenciar o que se esconde no coração de um cão... basta uma troca de olhares, e veremos que ali tem anjo. Lindo conto! Uma Boa Páscoa pra você, Marcio.

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  6. Emocionante... pena que o desfecho, como na vida, não seja o tão sonhado. Lindo ler-te! Tenha uma bela Páscoa junto aos seus. Cintia

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  7. Que linda história, Márcio. Mas fiquei muito triste com a morte do Ipê.

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  8. Cãozinho Ipê mostrando a fidelidasde canina, encantou-nos com mais um texto seu .A criança feliz e pura nos emocionou com seu comportamento tâo próprio das pessoas de boa índole. O emprego das onomatopeias enriqueceram a narrativa, transportando-nos para aquela mata imensa.
    Parabéns, Marcio.
    Uma feliz Páscoa.

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  9. ..ah prima arte..sensibilidade tanta tanta...

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  10. Cães são sempre grandes amigos e depois de atados os laços afetivos com um, a perda é como se fosse de uma pessoa da família.
    Emocionante sua prosa poética, prezado Márcio! Continuo aguardando ansiosa pelo livro! Minhas palavras e alma te aplaudem.

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