sábado, 21 de setembro de 2013

Os sapatos do Menino 84

Que aquele magricela de pés no chão, roupa acanhada, a de ver a Deus, e olhar de um cãozinho com saudade, pisou na sala de aula, cada criança quis tê-lo sentado do seu lado. Mas a professora... Crianças! Vô Patrício vai-se sentar aqui, pertinho do quadro, porque não enxerga muito bem.
    Vô Patrício, ou Menino 84, por causa da sua idade, virou o tchã. À hora da merenda, as crianças preferiam sua historinha ao arroz-doce; faziam roda. E que uma professora disse ah, eu vou entrar na roda, as outras, ó, atrás dela.
    Não demorou  e  as  crianças se deixaram  do Saci, da  Narizinho  e Vovó Benta, tanta era a ternura que escapava do Menino 84. E que ele já escrevia de carreirinha, eis a novidade: o concurso “Quem escreve o melhor texto?”. O prêmio? Um caminhãozinho de plástico e grandão, ou uma boneca que falava ma-mãe.
    O lugar, Céuzinho, entrou em alvoroço. E as mães, aos filhos, então? Ó, escreva direitim; bem bunitim. E a professora, a jogar lenha na fogueira? Quem será que vai levar o caminhãozinho ou a boneca, hein? Quem será!
   Quem será que foi o menino Juca, o  vencedor. Mas aí  questá: enquanto o caminhãozinho não chegava de tal cidade, o povo de Céuzinho tinha na ponta da língua o texto de Vô Patrício. Só se falava nisso:

Vim menino, coisa do mato. Fui cabo d’enxada, banho de córgo, barriga-d’água, pé na enxurrada. De um tudo: até ‘sobio de passarim nas matas; ‘sobio cantadô. E vi de um tudo: “arma” penada, facho de fogo na serra... Mas fui meu benzedô.
Vim menino, coisa de taipa. Fui jão-de-barro, barro e capim. De um tudo: lida de sol a sol, numa espera sem-fim. E vi de um tudo: gente de pé no chão, a sumir nos confins. 
Ora sou d’alegria, que nem ver no circo o paiaço. Sou de livro e caderno; não tenho a vida no laço; sou do viver... Vim menino da taipa, bicho do mato, é vero; mas ganhei um mundo no escrever e ler.

    Aí, à hora da entrega do prêmio, Juca vai e repassa-o a Vô Patrício: Toma vô, é seu. Mas o velhinho o devolveu: não que meu tempo de caminhãozinho tenha-se apagado; não. Mas eu queria era o prêmio de ter meus pés morando em sapatos...
    Sabe o silêncio, aonde se secou um  corguinho? Foi esse o que se fez na escola. Mas a professora o quebrou, cortando lágrima: Assim seja, Vô Patrício!
    Diinhas  depois,  ó  o  Menino 84 de sapatos, pelas  ruazinhas de Céuzinho!



12 comentários:

  1. Márcio que linda história... sua criatividade é infinitamente pueril, terna... poética, amei vô Patrício!!! BjZ

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  2. j'aimerais vraiment cette école. Je voulais m'asseoir avec le Menino84, Marcio. Gros câlin. Malice.

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  3. Suas histórias sempre me encantam e me faz voltar no tempo. Carinho da Cida.

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  4. Que belo! Como diferem os sonhos! Uma alma rica e os pés descalços. Abraço.

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  5. Uma linda história, Marcio! Mas se eu fosse ele, teria preferido ficar com o caminhãozinho.

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  6. Bom dia Marcio, é um show as suas histórinhas, adoro te ler amigo, meus aplausos muito bom. Boa semana.

    Maria Mendes

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  7. Eu, como Vô Patrício, ganho o mundo lendo e escrevendo.
    Meu mundo fica cada vez mais enriquecido quando leio suas estórias pueris e ricas em mensagens.
    Chamou-me bastante atenção o vocabulário matuto: dreitim,, bunitim, passarim. Fiel ao personagem.
    O sentimento do agradecer também está presente na estória. Lindo o trecho em que o menino oferece o prêmio ao Vô. Um par de de sapatos para um pé calejado... A realização de um sonho para quem se propõe a vivê-lo .Poderá existir algo tão gratificante assim?
    Parabéns, Márcio, pela criatividade e pelos ensinamentos de vida em seu texto maravilhoso.

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  8. Marcio, comoveu-me a história do vô Patrício, quantas hist´rias tem ele para nos ensinar, mas resolveu aprender, quantos vôs estão por aí, a contar suas histórias, mas sem algum reconhecimento, um céu repleto de aventuras e um chão cheio de esperanças. Parabéns pelas belas palavras que fizeram um texto maravilhoso. Grande abraço!

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  9. Márcio, Márcio! Cada narrativa, mais que poesia: uma bela lição! Aqui foram várias: do respeito às diferenças, passando pela inclusão social, a honra no reconhecimento, a aventura do aprendizado que recomeça todos os dias e não termina nunca, a fidelidade quase reverencial às características próprias da linguagem de cada personagem traduzindo-lhes metalinguisticamente suas características físicas. Comovente! No mês dedicado às crianças e aos professores, meu coração lhe é profundamente grato por esse precioso presente! Beijos na alma.

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  10. E que a ternura chega de mansinho atrás de cada dizer, pra no final a festa ficar bonita assim. É desse jeitinho que a gente quer fincar ranchinho nesses terrenos. Bonito pra sobrar. Parabéns!

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