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domingo, 3 de março de 2024

As Histórias de um Garoto e uma Escrita Forte da Vida


Em bloqueio criativo para o seu livro, um velo e solitário cronista de inexpressivo jornal aceita  o convite para analisar as pequenas histórias de um garoto. E para esse encontro de almas, a vida lhe havia reservado uma escrita muito forte.

O Gatinho Pedra no Feijão


 Em estilo lírico, divertido e reflexivo, as crônicas de Márcio buriti nos levam à paz das pequenas cidades. Ao fina de cada leitura, haverá de escapar do leitor, inopinadamente, o "Olha só! Que legal!"

A Moça que Lia no Alpendre

A Moça que Lia no Alpendre

 A viagem se inicia com um místico para descortinar o cotidiano poético, reflexivo, dos aspectos interioranos e, sobretudo, da esperança de encher os olhos encontrada em "Ergui a agulha do LP, e, para não a ver partir, subi à colina da minha vila. Ali, coração bélico, jurei a ter nos braços, passasse o tempo que fosse. E esse infinitivo se fez em 43 anos, quando a vi por uma Rede Social. Disse-lhe 'Oi!', ela sorriu também, repetindo, repetindo 'Oi!'".

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

No fim, só dá saudade


De começo, da janela a manhã órfã de vento e sol. Dá poesia, mas não com os súbitos de uma esquina que tomba em outra igual às peças do dominó. Ideal para o que quero, seria ouvir-se dos ares da manhã “Pour Élise”, e eu me rodasse para o céu, à procura das notas Si: Si Bemol, Si-Si maior e me-nor, e ela a sorrir para mim, volitando entre os acordes de Beethoven.

Mas, não.

Então paro, respiro, e daria outra poesia para ela se as árvores pegassem a falar sobre tal ou tais primaveras de outros tempos, e se não houvesse nos rostos apressados a mão colada na boca para sustentar outras bocas aber-tas.

Ah!

Mas, os pássaros, cadê os pássaros, meu Deus, os que sempre foram tra-pezistas no espaço brumoso para me ajudar com o lápis e o caderno? E essa sirene, aonde vai parar com a urgência de ontem, igual aos dois cãezinhos de olhares fundos a me perguntar distantemente se sou o companheiro deles? Não há rumores de amor… Não há, e parece que tudo vive como se não tivesse nascido. Igual à poesia que quero, mas que não me mostra o seu atalho. Queria uma poesia assim, assim para ela. Uma que não cheire a… Ah, não! Não queria ir para o meu quarto, recolher-me em mim, porque aí, no fim, só dá… É, é isso mesmo: saudade.


segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Recado

Pelo feixe do luar,
prateados nossos beijos idos à noite,

nossas mãos entrançadas,
a selar o segredo do amor em açoite.

Pelo tempo impreciso,
procissão pairante da lerda saudade

que me prende a corrente
e me solta às astúcias da tempestade

da falta de você…
Pelo lasso de não mais lhe ser lembrado,

Deixo-lhe, ó, deusa (em vão?),
tão remissivo e rogativo recado:

por um feixe do luar,
no alpendre do álamo da mi’a nova vida,

guardo, cuido a você
nossos beijos idos à noite… Ó, querida!


A "pedido" de um coração esquecido e que, creio, vive à “estação de chegada” da sua nova vida. 


sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Mentira!

 

De bodoque e bornal, cabelo testa abaixo e olhos da cor da esperança, dei giro pela Vila. Passei na calçada de quem me queria, e eu nem aí. Voltei no rastro, entrei na quadra e na rua seguinte para passar ao alpendre da casa de quem eu queria, e ela nem aí. Passei rente, a rasgar o braço, porque ela estava e estava ao alpendre.

Olhou-me, primeiro para o bodoque e o bornal, enquanto eu queria que ela me visse como caçador pronto para caçar o nosso namoro, e segui. Na praça da igreja, os buritis apinhados de passarinhos, o sacristão e o padre, me viram. O sacristão, que isso… matar passari-nho? Me dá esse bodoque, dou não, é meu, e nos rolamos. Rasguei o beiço dele à unha, e com a mesma arma ele rasgou a mi-nha testa.

O padre nos apartou, me mandou embora, e voltei pela calçada dela. Ao me ver sangrando, e eu queria um ribeiro de sangue no meu rosto, ela levou as mãos à boca — oh! —, e me convidou a entrar, a sentar no seu banco de alpendre. Daí, que pensei ganhar um beijo da minha deusa, ela entrou na casa, veio com tesoura, cortou em pedaços o meu bornal, as gomas, segurou um pauzinho da forquilha, eu noutro, e adeus, bodoque.

Dias depois, a vi à janelinha do expresso, ela a se mudar para a cidade grande. Foi quando meus olhos perderam o verde da esperança, e as minhas esperanças de muita coisa, ó….

Agora, cinquenta anos depois… Mentira! Gritei comigo, ao vê-la pela Internet.



sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Encosto

Causo: O Coração Desarranjado do Jãozé


A casinha dele
é frutinha do Alto da Serra,
pau-a-pique verde,
e do lenhafogo estala os beijos de Si-si.
 
Pelas telhas de sonho
se vê do outro lado.
E doutro lado da Cheia que entra,
a sua Deusa Si-si virá vestida de railua,
cheirada de amor.  
 
Aí, a matitaperê 
cantou no cacto da vida de Jãozé.
Pau-a-pique secou,
a lenha se molhou,
a Cheia se gorou.
 
Si-si virá, viria, veinão.
 
Nhássó,
benzedeira do Riachão,
no seu camim a Jãozé,
arruda, licrim, guiné.
Ramim não desramou por espinha-caída,
por pingo de cobreiro,
por tico de mauoiado.

Não.
 
Arruda chorou,
guiné murchou,
licrim secou,
por encosto... de amor.
 
 
Observando uma casinha sem morador.
Andrequicé, Três-Marias, Minas Gerais, setembro de 2021.

 

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Quem Sôi Nóis...

 

Sôtõezim, na casa do seu compadre Sêo Zé Afonso. Ele é padrinho do Traque, irmão do Duca, os dois amigos do Poêra. São meninos de nove para onze anos que se irmanam com um papagaio falador, de nome Zeca, e saem pelo campo e desce e sobe o rio a nado e fazem balanço de cipó sobre o riozinho.

Sôtõezim, ao café, quer saber do afilhado:

— Compadre, quede o Traque?

Sêo Zé Afonso corre as mãos no rosto:

— Verdade, compadre, num sei. Falei coa muié que, quem pode coeles, é só o Saci. Eles se juntam e saem poraí, afora, fazendo bobage. Sobe morro, desce morro, pé de manga, de goiaba, mergúia, pega peixe coa mão, mexe coas éguas, coas cabras do vizim, e antonte o Traque descuidou e a mãe dele viu que ele escondia coisa dentro da carça. Foi ver, era uma carcinha queles ensinaro o Zeca a roubá das cordas de secá rôpa, e a muié inda quis queu fosse adevorvê a coisinha… Ói, ocê vê! O negóço, compadre, é que já tou a ponto de pegar o chicote e dar jeito ne-les…

Do breve silêncio da conversa, Sôtõezim arremata:

— Ara, compadre! Quem sôi nóis de pegá valentia cos meninos, sô. Se assuntá direitim, nóis tem deles é inveja enrascada com sodade, num é? Larga os menino, compadre! Quem sôi nóis…


Arraial d'Ajuda, setembro de 2021.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Léo

 

                                                             Léo da Amanda, do Dirceu, da Aninha.


O Rei Sol deita os raios na grama, e estes se espalham que nem sombra de nuvem para secar possíveis rastros de tristeza. Já sei, qual é a do Rei Sol: é purificar o Parque para a chegada das cri-anças.

E o meu coração, de tão bom que é ver o Léo, me pinta um quadro: o Parque é o céu e ele uma pipa amarela a deslizar-se pelo azul. Daí, que a sua mãe e a irmã se ocuparam com as amigas, Léo se esgueirou para o Velhinho da Pipoca. Já esteve com ele outras ve-zes, muitas, e da primeira se fizeram amigos.

Sim, amigos. Tanto que a prosa de amigos de longe revela ternura. E agora, o Velhinho da Pipoca apontou o dedo para certo lugar por ali, e eu, como sei o que se passa, denuncio o que ele disse ao garoto: “Sim, Léo, é bem ali, perto da sua casa”. Daí, em novo gesticular, finalizou: “Isso, Léo. Faça isso, garoto! Vá em frente!”.

Ninguém sabe de nada. É ainda mistério. Somente Léo e o Velhinho da Pipoca, que, confesso, sou eu, é que sabemos. E o que escondeu dos pais, por receio de eles não o aprovar, acon-teceu.

Foi num feriado desses, um dia de não deixar a cama que, instruído em sonho por seu Amigo Invisível, Léo saiu. Em modo furtivo, com lápis, folha de caderno e biscoitos no bolso, seguiu direto para a grade de uma casa, onde um cãozinho morria aos poucos por maus tratos. Ele e o vira-latinha eram os únicos acordados naquela manhã, e o pobrezinho, encolhido de frio, aten-deu ao seu estalar de dedos.

Léo o tirou daquele horror, envolveu-o com a sua camisa e, a caminho do Abrigo São Chiquim de Assis, o dos animais abandonados (“Sim, Léo, é bem ali, perto da sua casa”), lhe foi dando biscoitos. Deitou o frágil cãozinho à porta e, a olhar para os lados, escreveu rápido bilhete: “Ele morria, onde vivia”, e tocou a campainha.

Atrás de um poste, Léo assistiu a uma das cuidadoras recolher o vira-latinha. Em casa, vestiu nova camisa de pijama e se fingiu dormido até a sua mãe o chamar. Será que a mãe (e as mães têm pacto com os Anjos), irá dar falta da camisa? Pode ser. Até lá, ninguém sabe nada, enquanto os raios do Rei Sol se espalham para secar possíveis rastros de tristeza, no Parque.


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Os Três Desejos de Aninha

 

                          Aninha Rezende Ceccato

As crianças (era um dia não muito distante), por certo saíram às suas janelas, assim que o dia se clareou para elas, e perguntaram: “Cadê o mundo que estava aqui?”.

Sim, Aninha assim se perguntou ao vidro da sua sala e enumerou as ausências: a moça, a que passava toda manhã com a sua cadelinha Teca e acenava para Aninha, cadê elas? O papagaio que pousava na árvore de frente para a sua sala, ao qual ela deu o nome de Zeca, e quando ela saía para saudar o dia ele se pegava na maior prosa engrolada; cadê o Zeca? Por ali, passava uma professora com seus aluninhos em escadinha da idade, e Aninha os comparava à pata e seus pa-tinhos a caminho da lagoa; cadê eles? Também havia um vovô que vendia pipoca no seu carrinho bem de frente à sala em que Aninha fazia os seus trabalhos da escola... Espera: e a escola, cadê a escola e as “tias” e os meus amiguinhos?

O Anjo da Aninha (em um dia não muito distante) responderá à sua protegida o que ela tanto quer saber. Talvez a resposta caia como à que ela deu ao seu pai e à sua mãe: depois de assistirem, ao chão da sala, aos desejos concedidos pelo Gênio, em Aladdin, ela falou, de imediato, dos seus:

1.º : Brincar amanhã e sempre de Barbie com meus amigos, na piscina da Vovó;
2.º : Que o papai e a mamãe trabalhem todo dia e sempre, daqui de casa;
3.º : Que em lugar nenhum do mundo tenha o Corona nem outras doenças.

Eu poderia falar do silêncio do mundo, mas prefiro entrar no silêncio dos pais de Aninha, depois dos três desejos dela. E para quietar e secar a lágrima que subiu ao cantinho dos olhos, a mãe foi estourar outra pipoca. Aninha se pôs ao vidro da sala, e, com a mãozinha cheia dos enormes grãos estourados, acredito que ela foi ver se o Zeca estaria ali, na árvore de frente.


[Textos na Quarentena, 2020]

quarta-feira, 22 de julho de 2020

De quem, essas palavras?

Manhã, tão suave manhã que os pássaros ris-cam, e o sol é um descuidado atrás da serra. Mas essa graça é ferida pela sirene impertinente da ambulância, que, marcada pela urgência, nem à porta da casinha de Vô Zinho, para de soar. Acontece que Vovó Mariazinha encontrou seu companheiro de rosto tombado na mesa. E sob o rosto, sem que ela percebesse, uma poe-sia em papel amarelado. Alguém a lê inadver-tidamente em voz alta, assim que o carro-de-socorro leva Vô Zinho (queira Deus que não os 71 anos de mãos dadas), deixando o silêncio a tomar conta da vila:


Para Mariazinha:

Terna manhã
em que o passaredo canta
e o dia se desperta
para se pôr na beira do rio
a ouvir a toada da água
e sentir o olor das florezinhas...

Mas sou mais que o dia,
pois todas as manhãs,
antes que o passaredo canta,
me ponho feito poesia ao seu lado
para te encher de beijos,
minha Mariazinha.


A Vovó se volta do vão da porta e quer saber: “De quem, essas palavras?”. Quem as leu, diz que elas são da poesia que estava sob o rosto de Vô Zinho. E ela: “Não, não pode ser. Nós não aprendemos a ler e escrever. Estranho, isso.... Mas ele me beija, sim. Muito. Toda manhã. Pensa que estou dormindo.”



quinta-feira, 16 de julho de 2020

A tristeza do Zeca

Me pergunto em que posso ajudar o meu amigo Zeca. Estou por saber, porque o Vírus Corona me freia de passar umas horas com ele, na pra-cinha.

Da penúltima vez, eu lhe disse, da janela do meu quarto, que o Vírus está aqui, na nossa grande Escola, para calibrar as cores da Natu-reza, engrenar as estações do ano e a nos dar algumas liçõezinhas. Por exemplo, a prática da nossa igualdade, a solidariedade, porque não passamos de criaturas, como o são os animais, os rios, as árvores… E que sejamos bons alu-nos, nós, os humanos, e não saiamos de casa para não atrapalhar o trabalho do Vírus.

Mas não é fácil. Zeca diz, com a sua eterna rouquidão, que nada tem a ver com as destruições da nossa grande Escola e com a nossa (um tanto) falta de empatia. Assim, ele não aceita o fato de eu não estar com ele, na pracinha. Embirra-se (que dó!) e vai aí, a querer ver as suas pessoas. Doido por criança, quer ver a Gabriela, o Xande, a Bianca, a Aninha … e nada. As crianças estão dentro de casa.

No entanto, estou a progredir quanto à tristeza do Zeca. Ele já entende a Quarentena, parece, e está de cara melhor. Tanto que hoje, cedinho, pousou na minha janela e bicou uma papaia por inteira. Daí me disse “voá, voá” e voou. Mas em segundos, voltou para agarrar a casca, que ficou na minha mão. Eita, papagaio!


terça-feira, 7 de julho de 2020

Doutora Luísa



Luísa, 6 anos, está com a sua vovó, no sítio. Acompanhamo-las com o olho da alma, e a Vovó a leva para ver um ninho de passarinho, num pé de pitanga. 

Mas que susto! Caído ao pé da pequena árvore, um filhote se agoniza sobre folhas secas. Com ele nas mãos em concha da Vovó, elas voltam a casa com a ideia de um ninho de retalhos e mingau de fubá. E somando a esse cuidado, entra em ação a assistência carinhosa da Doutora Luísa. 

O paciente, ao nosso olho da alma, é feito de pa-ciência, parece. São muitas as perguntas da Doutora, e é um tal de “fale 1, 2, 3” e medições de temperatura e batimentos cardíacos feitos com a ponta do dedo mindinho, de não acabar mais. 

E daí, o nosso olho nem pisca: é que acaba de chegar à clínica, cujo endereço é a banqueta da cozinha da Vovó, a mamãe-passarinho. A mamãe havia voado pra lá e pra cá, ao terreiro. Aquele voo que o nosso olho da alma conhece muito bem: o de assuntar. 

Então ela assuntou, assuntou e, decidida, entrou na cozinha em vruuup para acom-panhar o tratamento do seu filhote, e pousou no ombro da médica. E o nosso olho da alma repousa nessa cena até que o paciente ganha alta e a mamãe-passarinho o leva de volta ao ninho que construiu na pitangueira do mágico quintal da Vovó.


segunda-feira, 29 de junho de 2020

Em memória de Nina da Rua

À menininha Olívia Rezende Kunz


"Nina da Rua"
Todo dia, cedinho, antes de abrir o açougue, Sêo Tuim a procurava com o olhar do outro lado da rua. E lá estava ela, a Nina da Rua, a se espreguiçar num beco de muro. Então ele a cumprimentava, “Oi, Nina! Bom-dia, Nina!”, e abria a sua casa de carnes.

Mas as vovós, vizinhas de lado de Sêo Tuim, não iam com isso. Se zangavam. Ora! Elas a cumprimentavam antes de Sêo Tuim, e Nina fazia de conta não as ouvir. Pior: parecia que o velhinho do açougue dava preferência à Nina. “Parecia, não. Dava”, diziam as vovós.

Nina empacava o atendimento. Demorava-se na escolha da carne. Ia de cá pra lá, de lá pra cá, ao balcão em vidro. “Que tal esta bisteca, Nina?”, era Sêo Tuim. “Ou essa fatiazinha de fraldinha, hein?”.

Hoje, as vovós concordam, a prioridade do velhinho açougueiro à Nina, poderia durar anos e anos, que elas não ligavam. Tudo porque se ouviu o rangido agonizante de pneus na rua, e alguém levou a Sêo Tuim a triste notícia sobre Nina.

Houve luto de um dia, na Vila Caládia. E que o açougue abriu as portas, lá estava Nina da Rua que Sêo Tuim fez de papelão, as patinhas apoiadas ao vidro do balcão de carnes. “Sem a gatinha”, diz o povo, “a Vila anda muito triste”.

Homenagem a uma gata da Turquia.