quarta-feira, 12 de junho de 2013

Menino levado


―  Olha esta... Esta foto tem uns... Ah, uns... Setenta anos, ou mais. 
― Era a sua casa? 
― Sim. A pontinha da outra que se vê, era a casa da Clarinha. 
―  Vocês tinham a mesma idade?
― Sim. Coisa de 6 ou 8 anos. Um dia, Clarinha roubou retalhos da sua  mãe, e eu os roubei da minha mãe, porque elas teciam colchas de retalhos, e a gente foi brincar de Jane e Tarzan. Amarramos os retalhos uns nos outros, e fizemos o cipó. Daí, eu subi no pé de manga rosa, atei o cipó retalhado num galho, soltei o grito do Tarzan, “OuuuOuuuou”, e saltei. Que saltei, o cipó arrebentou e eu caí de bunda, em cima da Clarinha. Três galos cantaram na sua cabeça, e eu fui chamado, ou gritado, mais uma vez, de “menino levado” 
    ― Ah, ah, ah! Olha esta aqui... Uma cristaleira das mais lindas! Era a da sua mãe?
    ― Sim. Um dia, o relógio de parede suspenso sobre a  cristaleira, eu  pego  e subo nela para tirar o relógio da parede, desmontá-lo, e ver como é que funciona um tic-tac. Aí a cristaleira, que tinha um pé defeituoso, tombou-se sobre mim, e eu fiquei desacordado dentro dela. Os cristais ó, babau! Minha mãe gritou à mãe de Clarinha que um mau espírito havia derrubado a cristaleira, e que ela fosse ajudá-la a erguê-la. Lembro-me que, ao acordar, ouvi minha mãe se lamentar: “Sunga de lá, comadre, que eu não sei cadê o Tinim pra me ajudar... Nestas horas, ele some”. Ao bulirem a cristaleira, porém, viram minhas pernas de maçarico; e com três galos cantando na minha cabeça, eu fui chamado, ou gritado, mais uma vez, de “menino levado”.
    ―Ah, ah, ah! Nossa! E esse cãozinho lindo aqui?! Fazendo pose, o danadinho...
   ― Sim. Era o Pitoco. Um dia, nem é bom lembrar, morreu um velhinho lá... Amigo lá de casa e de todo mundo. Então minha mãe e meu pai decidiram de a gente ir velar o morto: fomos nós e o Pitoco. Acontece que o Pitoco não gostava de gatos, a não ser da Nina, que era nossa. Aí, que todo mundo rezava, Santa Mãe, uma gatinha apareceu; e, não tendo saída ao Pitoco, correu pra debaixo do caixão sobre cadeiras. Nem vi que gritei: “Pitoco! Não!”. Ai, ai! Que fui agarrá-lo, eu escorreguei e me bati no caixão... Nossa, o morto vazou do caixão e, disseram as rezadeiras, ele olhou pra elas com um olhão ó, e elas caíram na rua. Daí, meu pai e uns homens arrumaram o morto no caixão; e, com um galo no osso da face, eu fui chamado, ou gritado, mais uma vez, de “menino levado”.
    ―Ah, ah, ah! Ah, e essa? É uma procissão?
   ―Sim. Um dia... Deixa essa e as outras fotos para amanhã, minha velha namorada. É que já são... Ih, quase 11 horas! E como amanhã é meu aniversário... Falei-te que faço “Sete Sete” amanhã? OK. Então vem. Vamos aproveitar mais a nossa primeira noite juntos... Vem.
    ―Eta, menino levado! ― disse a vovó, de mão dada com o vovô, a caminho do quarto. 



10 comentários:

  1. Menino levado, mesmo, como eram os de antigamente, antes dos videogames! Mais uma vez me diverti feito criança, Márcio. Obrigada por contar suas histórias pra gente grande e velha também.

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  2. Você sempre surpreende de um modo totalmente mágico no final! Os dois últimos parágrafos emocionaram-me profundamente! Belíssimo texto! Acho que todo relógio de parede guarda lembranças de cristais suspensas num tempo que ficou pra trás! Parabéns, meu grande e querido amigo, encantador de palavras e de almas!

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  3. Parabéns por mais essa linda história que me fez rir e voltar ao passado como sempre acontece ao ler você. Tenha uma boa noite! Cida.

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  4. Que histórias lindas as suas! Se eu te contar as da menina levada que eu fui, você vai rir. Essa do defunto me lembrou uma também.Na roça era costume repartir quitandas e café nos velórios. Meu avô me levou junto num velório de um velhinho eu tinha uns 8 anos. Quando os adultos viram, eu e alguns amigos, havíamos colocado um biscoito de polvilho na mão do defunto. Menina custosa né?

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  5. Menino levado, cheio de lembranças das lambanças que fazia! Lindo demais, Marcio!

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  6. Que doce! Ele não era tão levado (rss), mas atraía desacertos. E como deve ser bom ter lindas lembranças para dividir, na convivência duradoura de um relacionamento! São muito especiais seus contos. Abraços!

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  7. Travessuras, e um amor que se renova na convivência que tem interlocução... Bem colocado o ditado Chines: "Case com alguém com quem você goste de conversar. A medida em que vocês forem envelhecendo, seu talento para a conversa se tornara tão importante quanto todos os outros." ...que final espetacular você deu para o seu conto! Há sempre muita ternura em todos os seus contos, Márcio! Amei... como sempre! Beijos

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  8. Boa noite Marcio. Ah meu amigo, toda vez que o visito, minha alma repousa nas linhas da inocencia... Teu descrever é de uma candura sem fim... As travessuras são lembranças que nos acompanham por toda a vida e arrancam muitas gargalhadas... rs... Amei, parabéns! Um beijo cheio de carinho em teu coração, Lu. ***Lembrei-me de quando era criança, eu e minha irmã gemea, no sitio... Um certo dia, minha tia varreu as brasas do forno de barro, e quando as vimos no chão, logo pensamos em jogar milho pra fazer pipoca... rs... Assim que jogamos o milho nas brasas, puxamos a camiseta pra recolher as "pipocas"... Em vez de pipocas, um monte de galinhas apareceu e começaram a dançar em cima da brasa quente... rs... Com apenas 4 anos, tivemos a ideia de pegar um bambu e espantar as galinhas... rs... Tadinhas, além do pé queimado levaram uma surra... rs... Ficamos sem pipoca... Um beijo migo... Lu

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  9. ah..estar com vc viajando pelas suas criativas, sensíveis, empolgantes narrativas, é emoção sempre especial e renovada...Carinho meu! Muito bom mesmo vir te ler, prende agente do princípio até o fim.. mas tem fim?..Não, não tem fim, tem sim, é o gosto de quero maissss...êta menino levado!!!Bjss

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  10. Magnífico meu amigo!!! Fico encantado com tanto talento, ao descrever de forma belíssima, um tempo que se foi e não volta mais, hoje as crianças se esqueceram até das travessuras, o computador tirou delas este tempo tão belo. Um abração.

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