terça-feira, 16 de abril de 2013

Maria Cecília

― Sabe de uma coisa, senhora? Se eu parar pra pensar, contam-se nos dedos as vezes que este quarto foi aberto, durante sessenta e tantos anos. Bem vês que não há ou havia nada de novo no quarto dele. Pensando bem, o que se espera ver de novo num quarto de um garoto de doze anos, estudante, cinco anos depois da Guerra? Nada.Era isso aqui: a cama de molas, o espelho, que, na época não tinha o fundo descolado assim, e a escrivaninha. Além, é claro, da saudade que aqui faz residência. Aí a senhora diz: “Como assim? Que saudade tomaria posse do coração de um garoto?”. E eu lhe digo mais: que o garoto via saudade em toda feição; que tudo para ele era saudade. Veja bem: cinco anos depois de uma guerra que buliu até com a vida dos pássaros, o que se podia ver na feição das pessoas era um resto de medo, sinais de dúvida ou de esperança contida, além das rugas pela escassez das coisas. Não achas? Mas, àquele garoto de 1950, em todo rosto havia um traço de saudade. Sei que lhe é difícil entender, mas era ele deixar a escola pra que tudo tomasse ar de saudade. E vou mais além: a saudade tinha nome. Sim! E não era Diamante, nome da sua pipa que se perdeu no espaço; não era Pitoco, nome do seu cãozinho que morreu atropelado. A saudade se chamava Maria Cecília. É... Longe dela, de sentir os raios do olhar dela no seu, até o tic-tac do seu relógio e do pulso tinha som de saudade.Um dia, aqui, à escrivaninha, ele pensou e pensou e parou o relógio; mas o pulso, não. O pulso lhe era ferramenta do coração nos desenhos que esboçava de Maria Cecília, e que guardava, e muito bem, nas gavetas desta escrivaninha; era-lhe a ferramenta às poesias que rabiscava a ela. Depois do desenho e da poesia e dos deveres, ele fechava os olhos; e, no mundo dos olhos fechados, via Maria Cecília lhe atirar o olhar mais cheio de luzes que se podem ver nas galáxias e o sorriso mais doce que o preparo de voo dum passarinho. Com uma coisa: no mundo dos olhos fechados, Maria Cecília não lhe tirava os cabelos da testa para lhe beijar a testa, na hora do recreio. Nesse mundo, era diferente. Não era um real como o real de ele a seguir pelo pátio da escola. Não era o real de ele entrar na brincadeira do passa anel para demorar suas mãos nas mãos dela. Não era o real de a sua mãe lhe cutucar pra sair da cama, ou pra ele sair da absorção em que ficava aqui, à escrivaninha. Não era o real com o qual sua mãe o tirou do mundo dos olhos fechados, numa tarde cinzenta, de chuva: “Meu filho, oh, meu filho! Ei, onde você está, ó menino? Volta a si, vai! Olha aqui: está todo mundo em pranto, meu filho... A cidade inteira. Olha aqui pra mamãe: a sua professora Maria Cecília morreu... Ouviu? Ela morreu...”. Daí, nada foi mais real que o calor das lágrimas, enquanto ele se sumia na chuva... Que o desconhecimento de Maria Cecília do amor do garoto por ela. Olha aqui: a saudade... Bem, sabe de uma coisa, senhora? Estamos aqui pra ver se você quer ficar com esta minha velha escrivaninha e meus velhos desenhos e minhas velhas poesias. Espero que eles estejam visíveis... Você os quer? Está bem; tudo é seu, agora.



9 comentários:

  1. Olá Marcio, grandes sorpresas aquí. Muy bueno. Abrazo.

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  2. Lindo, surpreendente, triste.... puro encantamento.

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  3. Olá, Marcio. Deixo sempre o melhor para o finalzinho, para ler devagar. O primeiro confronto com a morte, especialmente quando se trata de alguém que amamos, é a pior coisa do mundo. É mergulhar num abismo sem fundo, e saber que nunca mais pararemos de cair. aliás, todo confronto com ela é assim. E os abismos se mesclam uns aos outros.

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  4. Muitas crianças desenvolvem um amor imenso por determinado professor. Em seus sonhos, vão além de um sorriso... trazem até esperanças indefiníveis em vista da pouca idade delas.
    Essa perda definitiva não é preenchida. Tira algo que não se consegue recompor. A forma como caminhou em seu texto é muito linda e "cutuca" a nossa sensibilidade. Abraços!

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  5. Você, querido encantador de palavras e almas, tem sempre um jeito especial e ímpar de dizer sobre cada coisa!... Vai nos envolvendo numa teia de sedução, nesse doce enlevo, até mesmo quando diz de morte e saudade: faz nosso coração sorrir entre lágrimas! E, realmente, parece que há sempre um(a) professor(a) na vida de algum(a) aluno(a)! Eu, por exemplo, desisti de um casamento com um ex-professor (já éramos noivos) para namorar e me casar com um ex-aluno, quase cinco anos mais jovem que eu, com quem construí uma bela família! E estamos felizes até hoje!
    Aplausos sempre, querido amigo! E grande abraço.

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  6. Olá, Marcio! Ler você é um verdadeiro deslumbramento. A sua maneira única de fazer a narrativa, prende nossa atenção do início ao fim do texto. Com o em tela, não foi diferente. No final a gente sempre fica com gosto de quero mais. Parabéns!

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  7. Um texto comovente, que trata de amor e de saudade, dois sentimentos praticamente indissociáveis. As recordaçòes como fio condutor, ficou lindo, Márcio.

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  8. Muitas vezes o professor amado desaparece de nossa vida, deixando-nos à mercê de nossas ilusões, de nossos sonhos e até de nossas loucuras.
    Ele é mais que um educador, talvez seja até a fantasia que gostamos de guardar em nossos corações.
    Nós o amamos um dia. E ele?
    Em seu texto foi muita bem desenvolvida a temática tão conhecida dos adolescentes, que é a paixão por seu professor querido.
    Adorei o texto. Lindo, lindo..
    Parabéns!

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