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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Rastro de tinta sobre tela

O pintor,
seus velhos pincéis,
e um dia a mais de meia noite, de meias doses, de fundos ais à dura
mudez da busca.
E passam nuvens,  e passam luas, e passam sonos  até que lhe roga 
tintas a tela. Ufa!

E nada nasce do nada:
uma primavera lhe fura o bloqueio outonal. Ele tira rastro de tinta da
manhã enroupada  de lãs; da  candura do  branco da dama-da-noite;
da magia do róseo da pele em flor; dos rubros da volúpia dos lábios;
do verde....O macio travesseiro da esperança! —; do azul, o sono da
água mais pura e do olhar absorto da lua; do amarelo, que se desco-
la do Sol e se faz em ruído de harmonia na rosa.

O pintor,
seus velhos pincéis,
e tudo se descansa ao rastro de  tinta sobre tela,  “Ela”,  brotado da
primavera  que  lhe  furou  o bloqueio  outonal. Enfim, pôde o pintor
beijar sua hipotética obra e viver à janela  fundos ais à dura mudez 
da noite.