domingo, 26 de novembro de 2017

Psiu, vó!, ou Isto é que é feriado!

Crônica para Isabelita Brito Céo, no seu aniversário de 2017.




DOS affs! à matemática ao oba! de aprender aqui que feriado é chuvinha no telhado, milho às galinhas, passarinho bicando junto. Também é pé na trilha, aguinha do corgo a bater nas pedras. Agora, vem cá: aquilo ali, de lá do corgo, é invasão: um casal a construir a sua casa?! Vou chamar a minha vó, ah, se vou! Saio de liso, volto com ela. Psiu, vó, e a gente de bruços na grama, detrás de arbusto, de olho nos invasores. O braço da minha vó dorme nas minhas costas, e quem nunca sentiu o cheiro de choro por uma coisa assim? Hã? Aí a casinha dos invasores está quase pronta. E a gente nesta de o que fazer ou não fazer, minha vó se lembra não sei do que na cozinha, quem sabe o feijão, sai de supetão, se dispara pra casa, e os invasores se assustam, se disparam pra mata. Ah, não! Quem sabe amanhã, eu penso, e o amanhã é agora, em que os invasores, um casal de joão-de-barro, cantam à porta da casinha que construíram no pé de ingá. Vou chamar a minha vó, saio de liso, volto com ela. E neste fim de aprendizado sobre o que é feriado de verdade.... Psiiiu, vó, pra eles cantar, tá? No mais, é eu aqui agora, na cidade, em affs à matemática. Maeê!



quarta-feira, 3 de maio de 2017

De alguém do Além

“ALGUÉM OFERECE A ALGUÉM 
 E ESSE ALGUÉM SABE QUEM!”

BEM antes da sessão, ofereço a ela, sem parar, pelo som do Circo, Dio come ti amo. Botões de rosa na mão, meus 40 anos caem aos 17 dela. Busco-a, pávido, entre centenas de pessoas à luz colorida da frente do Circo. E que a única pessoa fora do espetáculo sou eu, do alto-falante me atordoa a última mensagem da noite:

“EM RESPOSTA A Dio, como ti amo, ALGUÉM OFERECE A ALGUÉM Non, ho l’età, E ESSE ALGUÉM SABE QUEM!”

Non ho l'età per amarti, deixo cair ao chão os botões. Ela no Circo com alguém rapaz, eu já numa taberna com o álcool e as lágrimas. Caio o rosto sobre a mesa, deitam-me na calçada. Dia claro, uma senhora faz alarde: “Chame a polícia! Há um morto aqui!”. Morto, eu? Estranho, estarrecedor, é ver o próprio corpo sendo levado. Ou isso não passa de sonho? Não, eu morri, sim. “Cardíaco”, ouço dizer. Daí alguém envolto por frágil luz se me aproxima, me abraça, me fala de tudo com carinho, me convida a ir com ela. Sigo-a, e que tiro as mãos do rosto, lamento por minha morte, já me vejo aqui no Além, como se diz aí, residente num hospital, há certo tempo em processo de cura à sedução desse amor.




sexta-feira, 7 de abril de 2017

Ah, este silêncio!

Silêncio... 
Ah, este silêncio!
Abrigo de mistérios, 
Que nem alma? 
Enquanto em nada penso, 
Neste ranchinho beiramata, 
Vento passa e diz que o silêncio figura o nada. Prosinha de vento vadio!

Atento o silêncio profundo, 
Sem fim, 
Sem beira, 
Sem sono.

Tudo dá à luz no seu meio: 
Os anseios e seus antídotos, 
Os vacilos e suas verdades, 
Os clamores e seus clarões... 

Isentivo? 
Punitivo? 
Ah, este silêncio! 
Por mim, e sobre mim, é soberano, 
 Posto que o meu segredo de amor, 
O meu segredo de amor tão nobre, 
Não passe dum cativo no seu sótão.




Ranchinho em Ubatã, beira do Rio Grande, Minas.
 Abril de 2017.

terça-feira, 21 de março de 2017

Pêpê-Aiá

A saudade ressuscita 
a quem passou nas nossas vidas:
― Olá, Pepê Aiá! Como vai você?




Benção, ó Rua Caládia
– presépio de crianças –,
que lá vem outro sol
do mais incauto brilho;
que lá vem outra raia
do mais ávido empino;
que lá vem Pepê Aiá!

— Leia aqui, Pepê Aiá,
nesta folha tão branca
quão vida de criança.
E ele se curva e lê:
— Pê-pê-ai-á-pê-pê
ai-á-pê-pê-ai-á...
Erudito de outrora,
é Pêpê às crianças
a bola da criança,
um riso de criança.

Bênção, ó Rua Caládia,
– presépio de saudade -,
em que se fez Pêpê
numa aurora risonha,
num repicar dos sinos
da infância queinda soa.

— Pêpê, onde tu andas?