sábado, 17 de setembro de 2016

O voo

Asas cortadas,
e minhas penas,
antes verdes,
eram da pura cor da terra
pelas minhas ideias a rés-do-chão.
Não me via a planar,
além desses morros,
pra ver a minha presa,
prenda solta sobre os verdes.
Morno,
que nem lusco-fusco pra noite,
eu não sabia que a verdade é voar,
ser livre como o claro do dia,
ou a esse gaviãozinho voante sobre tudo.
Mas arrostei o que eu retinha de escuro,
dei-lhe luz e voei.
Pairei além desses morros
e vi a minha presa,
prenda pronta às minhas garras.
E agora eu posso ensinar,
num a prazo em conversa como essa,
que o amor me cutucou ao voo para a liberdade.


(Da janela do quarto, o velhinho volta o olhar à sua presa, sua prenda, sua velhinha ainda na cama. Dois grandes bonitos da vida — ele bate no peito —, é vê minha veínha acordá e o dia nascê com o sabiá).

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Busca-pé da travessura

Prosinha à menininha Olívia Borges Elias.


As vovós, vovozinhas. São da prosa na varandinha de chão batido; chão gelado:
− Que é de Olívia, comadre?
Hã! Eta, menina! Busca-pé da traves-sura, arriba campina, arrepia os bichos, arrola isso tudo aí. Ih! Abra-a-porta-maria, borboleta aquiprali, tititi com bem-me-quer. Beira-rio, cata fruta, lava os pé, zap!, zap! em cipó. De noitinha, tição na mão, a caça ao vagalume: − Vagalume tem-tem, seu pai taqui, sua mãe tamém!
Deita-se comigo, vagalume alumia as têias. Vontade é de torcer a oreia até pingar escutados, sabe? (SILÊNCIO). Mas que prosa sou eu, comadre, se Olívia garra no sono e eu me agarro à janela? A saudade é fechadura, e eu chave nela encrencada. À janela, boiando na madrugada, eu sou Olívia, busca-pé da travessura. Voo longe, vou em menina, o que me acode no gastar com gosto o restinho dos suspiros.
(SILÊNCIO). Eh, ai! Mas vamos entrar pra merenda, comadre, que Olívia quase e-vem para voltar...


(Só agora, que elas entraram para o café, só agora dou conta do mundo, pois ouço a toada dolente do monjolo: chuááá...praft!... nheeec... chuááá...praft!...)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Ela tomando banho

Ô! 
Que a madrugada se livra das ilusões das ruas, e cantam livres os grilos pelos canteiros, e a lua entra na fase de sonho, aí é tarde para o cuidado: ela já está nas minhas águas, tomando banho nas minhas águas.

E nada de peito e de costas, e vai fundo e vem raso e faz onda. Caio os olhos: a lua não me dá uma demão. A lua é sonhar, sonhar, sonhar. Arre, como me custa esse arrego!

Aí vai e me escapa um feixe de luar. O meu coração sobe o  tom, e eu já nem sei onde estou com a cabeça, por tê-la nos braços... Mas sei! Orvalho de Contouré o caminho da capela, e as moças namoradeiras, das suas janelas do inverno, nos verão passar em primavera.


                                                                       


(Aí qu’está: minha mãezinha arrasta os chinelos até a sacada e me cospe pedras de gelo: “Ó, na sua idade, a friagem é um veneno. Fica aí com coisa que alguém vai chegar... Hmmm, muda de prumo, sô!).