segunda-feira, 25 de julho de 2016

Doce ladrãozinho

Por toda a sensibilidade da fotógrafa e poetisa Marilene Duarte.



Menino piolho de varanda, que a minha vó diz que sou. Desatento, tenho a cabeça na cantiga do corguinho e nos meus brinquedos no quarto. Vovó amassa pãozinho, assa pãozinho, e já pôs pãozinho na mesa da varanda. Que eu volto do quarto, ó o pãozinho furado; miolo roubado. Ah, é a minha vó! Enfiou o dedo pra ver o sal.
      “Não, não fui eu, meu netinho, juro!”
      “Então, quem, vó? Ninguém aqui, ué!”
     A vovó pôs outro pãozinho na mesa. E com a cabeça na dama de botões, que não sei onde guardei, vou atrás. E que volto do quarto... “Aió, vó!”
      “Não, não fui eu, meu netinho, juro!”
     Emburro, vou ao corguinho. Lá tem ingá. E boa ideia que me veio, pois acabo de descobrir o ladrão de pãozinho: um socozinho.
     Amoitado, xingo-o de tudo quanto é nome: danado, safado, e um que me escapuliu: doce ladrãozinho. Roubou o miolo dos pãezinhos pra pescar. Bico compridão, joga pedacinhos na água, lambarizinho vem com a fome de anteontem e, ó, babau vida no corguinho. Falo comigo pra servir pra ele: “Vou contar pra minha vó, vai ver”
     Contei ao ouvido da  vovó. E agora  é a  vovó  agarradinha  a mim: a gente assiste, num psiu tamanho do céu, ao miolo do pãozinho a se passar por isca no bico do socozinho.