segunda-feira, 25 de abril de 2016

Sede ou fome?

-Eu não te amo mais!.... Não, você não passa de meu amigo!
Não é o que vejo nela. Aliás, o que está vindo dela é tiquinho, pois tudo o que está abaixo do que sinto por ela é tiquinho, sem valor. E ela fala e fala, e troca capa de almofada, e se senta, e se levanta, e passa cabelo atrás da orelha, enquanto congelo tudo como da boca pra fora. Não! Não aceito o que não se faz de verdade no que nunca quero ouvir.
     Está Etna para me vomitar coisas horríveis. E que é da bolsa, e já procura nada no tudo da bolsa, e quer sair porta afora. E logo eu, que me julgava.... Estou trêmulo. Sinto tanto o fim desse amor que nem sinto lhe dar passagem. Olho pro chão, ouço o trinco da porta, faz-se silêncio, de novo o trinco da porta, e ela pincha a bolsa longe, se atraca a mim, se diz sedenta do meu beijo. Mas não é sede; é fome, pois me morde, me tira sangue da maçã do rosto, do furadinho do queixo, dos lábios.
     De costas na cama, ela sentada sobre mim. Travesseiro em sangue, mertiolate queima, creme lambuza. Lembro-me da minha mãe: “para esse tipo de estrago e inchaço, basta o roçar duns lábios”. Mas não me preocupo com isso, agora. O que me encuca, deveras, enquanto ela cuida do que me fez, é que nunca sei quando ela está com sede ou fome. E isto me deixa.... Sabe?