segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Até onde busco Maria?

     Para Élida Lemes



     Muitas árvores do tipo canafístula, serenas, que o vento aqui não tem pressa. Arbustos floridos divisam os limites das casinhas ao estilo antigo dos campos franceses. As casinhas que estão sob as árvores por estética, porque o sol ― e eu caminhei muito sob o sol ― nada tem de bruto.
    As pessoas passam tempo nas ruazinhas sinuosas, planejadas, entre as árvores. Como sempre, umas tristes, cabisbaixas; outras de feição alegre, erguida. Umas, me parece, andam como a não pisar o chão; outras carregam o cansaço na mala. Mas todas com jeito de se ter lugar pra chegar.
     Eu, não. Sôfrego como eu, só eu: coço a testa, roo unhas, tombo a cabeça para as mulheres de cabelos negros e longos. Comprimo o olhar numa e outra, me aproximo, uma me olha, outra morde o lábio, mas o esforço é só mais um capítulo do desalento: nenhuma tem o sorriso e o olhar que busco.
     Não sei do tempo de busca. Ainda não atinei para a noção de tempo. Creio que a noite se faz quando o dia se ofusca, e eu vejo maiores a lua e as estrelas. O que sei é que eu me sinto cansado por não a encontrar, porque isso decreta meu coração.
     Entrego os pontos? Coração dói. Tudo dói. Entro numa ruazinha, quero sumir, vazar o horizonte. Mas com pouco vejo uma mulher de cabelos negros e longos, sentada de frente para os campos de quaresminha. O coração dá saltos: é ela!
     É ela até o “Oi, com licença”. Que se vira, dá-se mais um capítulo do desalento: não tem o sorriso e o olhar que eu busco. Ou que eu buscava, porque um casal de jovens se aproximou, e a moça, me dando a mão, disse com carinho: “Venha. Estás confuso. Precisa-te descansar. Logo terás permissão para ver Maria, na Terra. Venha”.