sexta-feira, 24 de julho de 2015

Cabides vazios

     Entre os seios da montanha, a volúpia do matiz do sol vinha como aura ao trem que cantava nos trilhos “ma-ri-a-ma-ri-a-ma-ri-a”.
     Muita alegria dá nisso: entorna-se em agonia. Mas à alegria me mesclei. Não me aceitei sem o minucioso mágico de ver chegar o trem que me trazia Maria. Na estação, era como se tivesse em mim um pote de cores e dele escapassem, volúveis, estelares, as que iriam tingir o nosso mundo, o meu e de Maria.
     Aí o trem parou na estação. Aí fui eu, coração de menino a solta, impulsor, sem a nada fazer de conta, pois a vida era a paixão que me levitou até Maria. Maria no meio das gentes; gente que partia, gente que chegava. Milhar de gente, e uma pra mim: Maria de malas no chão.
     Então tudo o que nos cercava se eterizou. Ou ficou na outra margem da deslembrança, que separa planos de vida. E estamos, eu e Maria, noutro plano... Tanto que a janela do meu quarto dá para a constelação de Pegasus, e a estrela Enif dá vida a sua cor laranja em cada fôlego nosso para o beijo.
     Logo ali (e eu a abraço, à janela), depois de Pegasus, logo ali, um beijo depois de Pegasus, a grande constelação Amare, donde nos saltou o amor que vivemos e que nos estrela com faíscas da alegria. Encosto meu rosto no dela para ouvirmos as líricas canções que vagam pelo cosmos.
      Mas aí é que muita alegria dá nisso: entorna-se em agonia. Que Pegasus se apagou, e nada de trem a cantar nos trilhos “ma-ri-a-ma-ri-a”. Há sim o meu gatinho a miar no meio do quarto com medo da chuva, que antes é o vento a bater a janela e os cabides vazios. Então fica assim: eu me sento na cama, pego o gatinho pra cama e deito os olhos nos cabides vazios, caído na certeza dorida de ter vivido mais um sonho de saudade de Maria.


quinta-feira, 16 de julho de 2015

Vizinhos na sacada

    Penso que ela vê a rua como eu: gente que nem fileiras de formiga. Uns, no molde do dia que não terá mais noite; outros, da noite que não terá mais lua. Vi um, e aquele ali, ao feitio de quem se desfia por um fio de amizade; outros, e mais aquele, no anseio por um coração, vêm doando abraços.
    Nos de olhos pro chão, creio, em busca de um “sim” que lhes erga o rosto, escapa agonia; naqueles, de olhos pro Céu, é volátil o alívio de um “não”, não ouvido. Aquele, incontestavelmente, roga por um retalho de aconchego; este, alheio aos outros, empina-se na rua, a exibir a gravata lilás.
    Uns se beijam sob marquises, sob juras, sobre nuvens; outros... Espera aí: e eu e ela, a vizinha? Ela se recolhe e regressa à sacada de batom vermelho e cabelo solto. Leio o apelo da sua nova imagem na sacada: “Por favor (Alguém aí?), eu entendo de amor e de amar!". E eu, igualmente inglório, me recolho, me sento ao computador e abro Minhas Imagens para curtir a foto de alguém. Alguém que há quase um ano...



quarta-feira, 8 de julho de 2015

As lágrimas

       A tez, negra, brilhava tal a bondade do coração. O olhar, negro, trazia do fundo dos olhos os raios de cristal ao sol. E ele, menino, ia a novo sonho quando a madrinha negra entrava no seu quarto ao raiar o dia e lhe puxava o lençol ao peito. E ele, fingindo sono, sentia, nesse instante, o desejo, a um triz da explosão, de pegar e beijar as mãos que lhe cobria. Mas não: imperava o estúpido receio de soltar as lágrimas de gratidão, posto que se fizessem tolas nas mãos da madrinha.
    A tez, negra, amanhecia como a canção de senzala a vibrar os raios da esperança. A voz, negra, brotava dessa esperança de liberdade já tão verdade quanto à luz do dia. E ele, moço de vez, vivia estrelário prazer quando a madrinha negra lhe trazia, ao prato, a comida ao seu sabor. E ele, fingindo calma, sentia, nesse instante, o desejo, a um triz da explosão, de beijar as mãos que lhe servia. Mas não: imperava o estúpido receio de soltar as lágrimas de gratidão, posto que se fizessem tolas aos olhos do mundo.
     A tez, negra, jazida com o corpo à mesa, brilhava tal a nova vida encontrada. O olhar, negro, fechado, agora via outras paisagens. E ele, de cabelos brancos, taciturno, viu alguém se aproximar e deixar cair, sem pingo de receio, lágrimas de gratidão sobre as mãos da sua madrinha negra... As mãos, uma sobre outra, molhadas de lágrimas sobre o ventre.