segunda-feira, 29 de junho de 2015

Prosinha

Um causinho de Seu Zequinha e dona Belinha, lá de Cabaça.

"Eu diria que o tempo é um fiapo de paina no ar com o poder de Thor”.


Olha, foi um... Ah, ele nem sabe o quê.
Mas ao que der e vier de um coração violeta de paixão, isso ele tira de letra.
Pisou na lua – pensou - à procura duns pingentes: brincos de estrela.
Brincos tão sonhados para quem, hã?
Para ela, a Belinha!
Mas que viu, não era a lua, e sim o chão, o chão de Cabaça.
E o chão se lhe sumiu dos pés, porque Belinha deu de ombro, pouco caso fez dos brincos.
Aí ele se despencou do sonho.
Mas conseguiu frear o coração
― que coração fica buliçoso e feliz com o que não tem.
Deu tempo ao sobressalto da paixão: toma, tempo, toma conta.
E aí, o que se deu? Tá escutando Belinha, lá na bica?
Pois é, Belinha canta e assobia e arremeda bicho e os passarinhos.
Não tira os brincos pra nada; nem para o lustre.
Belinha é esse bonito da  sua vida, dês que ele abriu a porta pros seus suspiros.
Hoje, é um... Ah, ele nem sabe o quê.
Mas ao que der e vier dos corações debaixo da coberta, isso Seu Zequinha tira de letra.

(Fim da prosinha, lá-e-vem dona Belinha pro cafezim, balangando os brincos. O meu olhar bate aqui e ali, nas florezinhas, e descamba pro mais longe, pros ipês, pro azul da serra).


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Na Rua Sem Sol

Caiu na busca, nesta rua comprida e torta e tosca, que traça com esmero o perfil de quem se joga nas suas calçadas, entre bêbados e rudes e súditas a atracar os homens a seus decotes: “Oi, homem bonito, tem aí um cigarro?”
         Exausto do vaivém, para à luz de uma fresta de janela de quarto e lamenta que o número só exista na palma da sua mão. Do quarto, escapam risinhos e gemidos tão lhe desditos, que ele sai do foco da luz para se recompor do “Será?! Não, não pode ser!”.
        Segue teimando na busca. Faltam alguns minutos para amanhecer, e dia claro o esforço é em vão, pois a rua é a Sem Sol, de sem-sal, um salão de fantasmas. Mas meu Deus, a que número chamar, ou invadir? E, se assim, que porta de quarto arrombar?
         Eis o dia! Lá se foram os bêbados e os rudes e as súditas frouxas de affair. Eis a Rua Sem Sol! Mas ele não desiste da busca. Não quer ser sonhador desvairado, o que vê baldado o pedido de um filho. E ontem, ao se deitar, seu filhinho entrou no seu quarto e pediu: “Pai, busca a minha mãe pra casa? ”


sexta-feira, 19 de junho de 2015

Coração aflito, ou Mãe, acorda!


“Você, como você, não mais existe. Até o vazio insiste em ser você”. Prateando versos: sonetos. / Odir Milanez da Cunha. - Olinda: Livro Rápido, 2014.



É a minha mãe!
Na cama, uma  pétala sem o vento.
Psiu como o escorrer do dia à noite.
Mas olha a sua mão!
A mão da minha mãe  nas minhas, e as dela têm as  marcas do arroubo do amanhecer.
Mãe, acorda!
A mão da minha mãe nas minhas, e as dela têm o cheiro do feijão ao fogo.
Têm o som do crepitar do fogo.
Têm o gosto do araçá do mato.
Têm o calo dos  cabos da vida.
Mãe, acorda!
E minha voz é sertão. E minha vida é o engaço da fruta que caiu, pois minha mãe é tão silente quanto a mim, sem ela.
Mas olha a sua mão!
A mão da minha mãe nas minhas, e as dela têm o cheiro da minha nova cartilha.
Têm o furo da agulha de linha.
Têm o molde da minha camisa.
Têm os suores por meu sorriso.
Mãe, acorda!
Acorda, mãe!
E eu choro de alegria porque minha mãe abriu os olhos, correu a mão no meu rosto e disse, sem ferir o silêncio: “Bom-dia, meu filho!”
Ufa!
- meu coração se aquieta.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Ao pé de goiaba

      O banco dele é o que tem à frente o canteiro de miosótis e a fonte luminosa. Vai ali para ler livro ― e cochilar, e até sonhar. Aí, um dia, um menino de uns doze anos saltou-se ao seu lado.
     ― Quer conversar?  ―  o  menino  disse, de cara.
     ― Estranho, isto  ― o velho foi pragmático. E disse consigo: “Eu, hein? Nesse mundo de hoje...”
    ― Estranho, não ― o menino insistiu. ― Só saber do senhor, em menino. O senhor namorou?
     ― Se namorei?!
     Um menino com esse assunto, ainda mais à primeira vista, foge aos padrões. Mas pela paz que escapulia do verde sobressaído dos olhos dele, o velho deu linha à pipa da sua indiscrição:
     ― É, namorei. Escondido. Tinha a sua idade. Como você se chama? Toím? Ué! Eu, Antônio. Mas em menino, Toím também. A sua casa tem quintal, Toím? Ah, é? No meu quintal, também três pés de manga. Que mais? Ah, a minha mãe também não iria ficar sem jabuticaba! Que mais? Goiabas? Vermelhas?! Olha só! O meu quintal, Toím, era o seu sem tirar nem pôr. O meu namoro? Ah, está bem, eu te conto. Bom, era a Verinha... Olhinhos de jabuticaba. O cabelo, preto também. Encaracolado. O meu pé de goiaba, quase ao muro; o dela, também. A gente subia neles e trocava olhares entre as folhas. Um dia, ela sussurrou uma coisa, e eu fui pelo galho que nem um mico; mas que ia tocar os dedinhos dela, o galho se quebrou e eu ganhei essa marca aqui, ó. Ah, você também tem uma cicatriz! Hã? Nem me lembra, Toím! Foi numa triste manhã. Um caminhãozão levou Verinha e seus pais, de mudança. Daí eu subia ao pé de goiaba pra chorar. Acredita? Parece que cortaram o meu mundo e só ficou o meu irmão pé de goiaba. Um dia, que enxuguei os olhos com a gola da camisa, eu a vi. Mas foi o vultinho dela e, aí Toím, ó, nunca mais. Toím! Toím! Ei, Toím! Cadê...
      Toím sumiu. Evaporou-se? O velho não mais o viu. Aliás, ele acha até que Toím foi só um vultinho; que nem o de Verinha. Um vultinho do seu eu, menino; do seu eu, Toím, e só.