sexta-feira, 10 de abril de 2015

A vovó e o vento travesso

À vovó Isaura Alves de Almeida, a “Mainha”, na sua luta abençoada para o cumprimento da vida exemplar.




Nunca, sozinha.
Sou avó de tudo.
Até do vento, vagamundo batedor de janelas.
Nunca, silêncio.
A vassourinha  suspira  xep-xep-xep  pela casinha.
Pego e abro a porta: nheeec!
O vento escuta.
Ouvido do vento é que nem o do Saci
Aí a poesia do varrer a casinha perde versos.
É que o vento é travesso.
Moleque!
Borrecido!
Dou-lhe vassourada.
Ralho “toma tipo, siô!”.
Ele se some por aí.
A vassourinha suspira xep-xep-xep pelo terreiro.
E não é que o danado do vento volta no galope da teimosia?
Pirracento, ai, ai, esbandalha o cisco: foias e gravetos no ar.
Faz peripécias do cisco.
Faz peripécias de mim.
Mando passear nos morros.
Ele se some por aí.
Mas hoje sumiu, sumido.
Dei de ombros sem querer qu’ele fosse: “Importa-me lá!”
Tardezinha, ponho os pés no chão fresco do pé de amora.
Mas que é do vento?
Pego e abro a porta do meu coração: oooh!
O vento escuta e  vem-me  adular na nuca.
Eh, eh, acho bom o seu soprinho.
Até me rio pr’ele não ver, eh, eh.
E digo pra mim pr’ele não se convencer:
“Some de mim mais não, seu travesso”.