domingo, 22 de março de 2015

Gui Passarim


Ao meu amiguinho Guilherme Cavalcante


Gui está de olho num velhinho com sua viola. O velhinho entoa uma modinha: “Canta, canta bem-te-vi, pra eu ouvir. Canta, canta sabiá, pra me consolar”.
Gui está no sítio com sua mãe. Tira os olhos do velhinho e deita o olhar nas árvores do quintal, limpinhas da chuva. Ah, é só isso, “canta pra eu ouvir, canta pra me consolar?”, ele pensa.
     Começa o desinquieto porque quer ser passarinho. Quer ter um passarinho amigo, voavoar, furar nuvem, brincar no céu, nos galhos... Mas qual a minha cor? E decide ser amarelinho da cabeça vermelha.
      O velhinho parou a cantoria, o dia foi  dormir, as aves  também. A mãe do Gui o aquieta com “cama, que amanhã é ir embora cedinho”. Quieto? O Gui, quieto? Vai querendo, mamãe! Nem em sonho, porque em sonho Gui é passarinho.
     Voa vrap aqui, vrap ali, e encontra o papagaio Zeca num pé de mamão. E seu nome? – Zeca pergunta – O meu? – Ih, Gui coça a cabeça porque não tinha escolhido o nome – Ah, pode-me chamar de Gui, tá? Gui Passarim, tá? Tá – disse o Zeca – Vamos brincar, Gui? Vamos naquela nuvem?
     Oba! Nuvem pra lá, pra cá, e tome quintal. Tempo de tudo: amora, goiaba, mamão. A mãe assa biscoito em argola, o biscoito cheira. A mãe descuida, e eles furtam biscoito. A mãe lava roupa, suas peças, e que vê, cada um com calcinha na garra.
     Vrap aqui, pra’li e na varanda. A mãe quer-lhes sentar a vassoura, Zeca lhe tira a tiara, Gui lhe faz titica no cabelo. Estripulia essa e aquela, escapam de arapuca. Mas Gui enfia o bico no mamão verde, e o leite do mamão gruda o seu bico. E agora?
     Agora, que o bico não abre. Gui se aflige: bate as asinhas, cai de costas, bate o bico no chão, passa a garra no bico, o bico não se descola. Nossa! Será que... Será, nada. Será, que a mãe do Gui o sacode na cama: “Acorda, Gui, já é hora!”.
     Gui volta pra cidade. Quieto, à janelinha do carro, vê  pássaros voando. Pensa, sem parar, o quanto é difícil a vida de passarinho... A não ser os passarinhos que o velhinho canta: “Canta, canta bem-te-vi, pra eu ouvir. Canta, canta sabiá, pra me consolar...”.