terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O menininho sem camisa

VAI sempre ao parque para ver as crianças brincar. Ama as mamães ditarem o “chega por hoje!”, porque o “chega!” tem a cara do quietar dos pássaros para o sono. Essa contiguidade, que nada separa, ele leva para o travesseiro.
   Viu lá um menininho sem camisa sair em direção à chuva-de-ouro, onde lhe aguardava uma jovem. Ela lhe afagou as mãos, decerto por nenhum dos meninos ter-se dado com a sua presença, e ambos olharam para ele, que desviou os olhos para outros.
        Sem dar conta da saída deles, cismou com o que menininho era aquele! Com os dias, via-se menino como ele: sem camisa no futebol da sua ruazinha, o jeito ágil, o olhar a julgar tenaz, o remoinho na frente do cabelo.
         Na  cama, o teto o espelhava. Chegou  a aceitar que  era ele. Não, que isso? Que absurdo! O que está-me passando? Não, não era. Não teve em criança a feição solitária e os olhos fundos, embora o olhar tenaz, como ele os tinha. E, outro dia, a verdade se lhe abriu em sonho:

“― Oi! – o menininho sem camisa foi até ele e o abraçou. Abraçados, ele lhe perguntou o nome: ― É L.... ― Ah, tá. O meu é M.... Onde você mora, L? ― No Parque dos Meninos. ― E sua mãe, cadê? ― Minha mãe, eu não sei. Daqui, eu gosto é de você. Você é que pode me ver e falar comigo. ― Como assim, só eu lhe posso ver? Cadê a moça que estava... ― É a Tia C.... Minha professora, sabe? ― Sim, sei. Mas cadê ela? ― Ali, ó, na árvore, tá vendo não? ― Ah, agora eu a vejo. E a sua escola, L, onde fica? ― Tchau, M! Tenho de ir. Minha Tia fez sinal – o menininho saiu correndo ― Tchau, amiguinho!”

     Eles se foram, e, antes de se desfazerem entre as árvores, como se desfazem fiapos de nuvem ao vento, voltaram o olhar para M, deram tchau, e forte comoção o fez morder o lábio, tentando estancar o choro. Mas isso não funcionou, e M ergueu a camiseta ao rosto e chorou o que tinha pra chorar.





quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Ao doce balanço de Aninha

Prosinha à menininha Ana Rezende Ceccato, a Aninha.


Mensageiras da alegria, as andorinhas gazeiam, vadias, vedetes, vivazes à cata de fantasias entre os filetes do sol, fartas das gotas de alhures arrebol. Passeiam no trópico, a vida a mil; mas ruflam as asinhas, giram-se no céu como um fio azul sob o espelho de anil, e mergulham, sagazes, tal o rigor do raio, vorazes para o galho que resiste ao balanço de Aninha. Aí, se enlevam, seduzidas, e se esquecem, abstraídas, ao doce balanço de Aninha.
       Olham-se indecisas à cantiga do balanço no galho, “vrec, vrec, vem / vrac, vrac, vai”, ruflam as asinhas ao trabalho de tecer o verão, o cordão de andorinhas. Qual o quê! Giram-se no céu como um fio azul sob o espelho de anil, e furam espaço abaixo, como um traço ao tempo de um pio, as cabecinhas ávidas, os coraçõezinhos flácidos tecidos pelo instante mágico de se estarem no galho que resiste ao balanço de Aninha. Aí, se enlevam, seduzidas, e se esquecem, abstraídas, ao doce balanço de Aninha.
       Olham imprecisas para o cabelo de Aninha, que ele voa, que nele soa o som da primavera. Mensageiras da alegria, ah, pudera abrir o verão, ouvir o que se passa nos fios, aquecer o frio de um coração... Quisera, tivessem o carinho de um beiral para o ninho com vista para a montanha! Mas nem a isso se assanham, e giram-se no céu como um fio azul sob o espelho de anil, e mergulham como risco de água no funil, para o galho que resiste ao balanço de Aninha. Aí, se enlevam, seduzidas, e se esquecem, abstraídas, ao doce balanço de Aninha.
       Mas hão de fazer o verão, o cordão de andorinhas, assim que os cabelos de Aninha cheirarem a verão.