quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Doralice

     No mais, é isso: não tive batistério, mas dessa vida em gastura, esse batismo de dor da nossa vida de cafundós tem-me tratado por Doralice, que eu queria Alice e nada mais.
     Minhas mãos são desertas de afago, meus seios do arrepio ao toque doutros dedos, meus lábios da quentura do beijo. Minha cova rima tanto com meus dias quanto o brilho dos meus olhos para o ranço da vida. Hão de abrir a minha cova onde estão os meus, debaixo de ramos secos; porque, na verdade, a gente recebe na cova o que é da nossa natureza de ser.
      Minto que vivo sem paixão. Tenho duas: Teté, a cabra, e ele, o homem que escavo no sonho quando à noite eu preciso, mais que água fresca, de uns braços. Aí, com ele no sonho, olho nos seus olhos verdes, e capim e esperança e tudo nos cafundós se me faz verde em folha. Mas isso passa como luz de relâmpago.
      Esse meu batismo não é coisa e coisinha como o guardar de gole de água pra mais noitinha, depois da ceia do chibé. Não, a dor tomou outro pulso: a alma se resseca e se tende a rachar que nem o chão. Aí bate o querer morrer, como eu quis. Então eu saí por aí, vazia de sentido que nem o cacto a guardar água de choro.
      Quis o meu fim, abraçada  à  Teté. Mas que  a vi a se contorcer, a berrar contra a morte, num pó em que um dia se ouviu a cantiguinha dum riacho, tomei-a nos braços e tirei de mim o pote para o dar a ela. No outro dia, é a vida, a chuva caiu e aos seus pingos eu entreguei os lábios, as mãos, os seios para que eles os tocassem, embora friamente os arrepiassem.
       No mais, é isso: eu aqui.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O bem-te-vi

     Sobrou isso, isso que me azucrina, que me dói tanto, que me acaba de tanto suspiro, que me acaba de tanto gasto da escrivaninha pra cama; tanto que estou mais pra louça fina na quina da prateleira, prontinha para o desfecho no chão da cozinha, da qual sou desertor.
     As minhas noites, aliás essa noite, vai que seja a derradeira, é desnuda de lua, porquanto tudo, a partir de mim, é escuro varado; então, essa noite, que me entrega à flor dos ossos ao abraço do travesseiro, nela se pode cavar um mundo, o abismo mais profundo, que ainda assim não é mais amplo do que isso que me dói tanto, que é um isso de desatino, sei lá, um isso dessa coisa que não se declara e que sobrou pra mim.
     Olha, acabou não sendo a derradeira, essa noite. Talvez o seja o meu azucrinado, o que me dói tanto, os meus suspiros, posto que isso que sobrou deva me acabar de tanta lassidão na cadeira da varanda de incerto balanço, nesse dia pardo com cheiro de incertezas. Mas não: um bem-te-vi largou seu sustenido ali, acolá, nos galhos que se trançam num caminho da mata, e eu, sei lá, que vi, já estava no encalço do seu canto.
     O bem-te-vi vupt, sumiu, evaporou-se, e eu vi, a um arbusto florido, o remédio pra coisa toda que me sobrou: ela. Ela como a mais pura Maria, a flor que inventei com a sua partida. Ah, puxou o cabelo do sorriso, estendeu-me a mão, e eu, ah, não... Um trovão roubou-me o sonho, e eu saí à janela, a olhar o escuro, a ouvir os pingões da chuva, tof, tof, tof, sem ela.