quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Francisquinho ou Os coleguinhas de vida

       É sábado, manhã a meio.
     Viu, agorinha, um passarinho pousar na cruz, lá em cimão da matriz. Agora um menininho a gritar “olha aqui, vovó”, logo ali; aqui, do banco, ele evita o olhar dos passantes.
    Perna sobre outra, braço apoiado na perna, rosto jogado na mão. Olha pro chão com o olhar tardio que, noite passada, sentado na cama, deitou nos cabides vazios.
      Um  pombinho, arrulhando, lhe  passa  sobre o pé; mas o que lhe passa, sobretudo, é a ausência continuada de alguém que conceitua a sua vida. Essa ausência é o espectro da dor que arrasta, há anos.
       A noite passada foi mais um passo que não incitou outro passo. Foi, inteira, o momento carrasco em que até o vasinho de flor da mesinha do quarto lhe cansou. Passou-a sentado na cama, pausado, sem chama para abrir a janela à luz do dia.
      Mas está no dia, no meio da manhã que marcou para apagar o toco da vela da sua vida. Quer fazer da praça estação para a viagem inglória por um tiro no peito. E que o relógio da matriz está para bater, tira do bolso a arma minúscula, que some na mão.
     Às dez horas, dez batidas, e o tiro a sair no último blem. Então encosta o cano da arma no peito e fecha os olhos; porém, que o relógio começa a bater, é tocado pelo menininho que veio à praça com sua avó:
      ― Ou, vovô, como é seu nome? O meu é Francisquinho. Tenho carrinhos de corrida. Não tem ninguém aqui para brincar comigo. Brinca comigo, vovô?
     O olhar pedinte do menininho, o sem saber o porquê de ele lhe chamar ao brinquedo, a perícia de guardar a arma no bolso, para jogá-la logo mais num contêiner de lixo, o impulso de uma alegria no peito, o sinal da nova vida: “Claro, Francisquinho, eu brinco com você, sim. Vamos lá.”
     Agora eles brincam no meio da praça, ao meio das manhãs depois daquela manhã. E a vovó, que assiste a tudo, faz poesia de Francisquinho e seu coleguinha de vida. Aliás, a vovó assiste a tudo, à sombra de um manacá, com ares de que fez versos tão leves quanto às bolhas de sabão que uma garotinha sopra logo ali.




terça-feira, 5 de agosto de 2014

Dianainha

     Quisera eu ser in-antes de vomitar palavras que nunca comi e deixar Dianainha. Agora o eu, besta, sobe a serra de volta, puxando a pedra do ato de contrição, desconfiado de que os passarim me olham de lado, que Dianainha não me vai abrir a porta, que tem alguém co’ela. Diacho!
      Corrói-me não ter freado o trem esquisito que me deu, dia lá, que ela cantava numa festa aos zóios querentes de outros. Cego, cismei: “Vômbora docê, Dianainha! Pensa que é só ocê, no mundo? Ocê fica aqui a que quiser!”
      Enroscado pelo trem esquisito da cisma, embrulhei minha roupa com o silêncio e fui ao pote molhar a garganta. Quem sabe, aí, ela não garrava minha mão, me pedia pra ficar? Hã, ela se sentou na banqueta e pegou a alisar o cabelão bonito, co’a vista dormida no fogo do fogão. Aí, como não era home de faltar ao “vômbora docê”, saí de casa, saí da vida de Dianainha.
      Quisera eu ser in-antes de descer esse caminho, que agora pego de volta, e que serpenteia na serra. In-antes, eu dividia o travesseiro com Dianainha, e me grudava nela pra roubar da sua pele o cheiro do Leite de Rosas... Eu riscava na viola, ela cantava que nem rouxinol. Mas agora eu desconfio qu’ela não me vai abrir a porta, que tem alguém co’ela. Diacho!
      Enrosquei minha vida nos tormentos dos lugares, e subo a serra acertado de que Dianainha é só ela, no mundo, e qu’eu não fiquei ao que queria, pois o qu’eu queria virou um vão. A culpa me deixou em silêncio e me forçou à verdade; e a isso eu abracei, pois é a arma que o amor por ela usa contra mim, se esqueço de me vigiar.
      Então está; cheguei. O cãozinho nosso, deitado à porta, me olhou que nem os passarim, de lado, e voltou o queixo às patas. Não precisei bater na porta, pois meu coração o fez em tum-tum-tum. Aí ouvi a chinelinha dela, sapt, sapt, e ela abriu a porta, e ela voou em mim, e eu faltei ao sério de que home não chora, e eu fui roubar da pele dela o cheiro do Leite de Rosas.