sexta-feira, 30 de maio de 2014

O coração de Aninha

Esse texto vai para a criativa menina Laura Fernandes Lemes de Oliveira


Céuzinho em peso ouviu os gritos aflitos da mãe de Aninha. À rua, gritou e pulou e chorou ao céu que haviam roubado o coração da filhinha.
―Ué, zusmarijosé! ― benzeu-se uma vizinha.
       A professora se enfiou no meio do povo plantado à frente da casa, e, que nem o povo, de sobrancelha lá em cima, ouviu da mãe de Aninha que ela chorava às paredes do quarto.
       A menina, tadinha, soluçava, cabisbaixa, passarim sem par, dedinhos no peito caçando o coração, cabelinho de Santa Luzia no colo. Então a professora arregaçou as mangas: “Ah, eu quero ver a cara desse ladrão!”
       Os meninos Cico, Helim, Dorinha, mais o Velhinho 84, investigadores. O Velhinho 84, também aluno, também da roda, também do rolo, suspeitou do garoto poeta, do garoto da viola, do garoto de olhos verdes.
      Reunidos na casa de Aninha, a  professora  pega e quis saber com quem ela andara naqueles dias. Helim disse que ela correu e pulou e gemeu e sarou como todo mundo eles. Já o Velhinho 84, cismado com o garoto de olhos verdes, disse o que dizia sua mãe: “Ôio verde atrai coração, bamboleia o coitado e ó, zás, rouba ele”.
        Outro velhinho, o delegado,  manso no seu burrinho, sem  suspeito, foi de opinião que o ladrão não tinha o que fazer, o que lucrar, o que viver com o coração de Aninha; que iria recolocá-lo no peito dela e pronto. “Cês irão ver.”
      Sim, eles viram. Antes, ouviram os ais do Zequinha, o menino tido como “o bobo”, ele à porta, lado de fora, fora da paz. A professora saiu e se quedou e se pasmou com o coração da menina na palma da mão do Zequinha.
      No  rostinho do menino  “o bobo”,  o trilho das  lágrimas. E elas pintavam e molduravam de jeito a sua dor de ter roubado o coração. Então a professora lhe fez sinal que fosse pendurar a joia ao peito da sua amiga Aninha, e ele entrou para o quarto.
       O povo, olhos doidos pra ver alguém sem o coração, não o viu. Viu foi boiando seus olhos, assim que “o bobo”, à calçada, se ajoelhou e beijou e molhou os pés de Aninha, em perdão. Mais: que ia dobrar a esquina, “o bobo” voltou o rosto e abriu, vez primeira na vida, o arzinho de riso; o arzinho de riso que Aninha apanhou, arrumou, amoitou no seu coração de verdade.




quarta-feira, 21 de maio de 2014

Suspense na pracinha

O velho e erudito Observador de Ruas nunca fica sem conversa, ali, no banco da pracinha; nunca. Mas ninguém lhe perfuma o coração como as meninas Ianie, de nove anos, e Yasmim, de oito, que com ele bate um papo rápido, antes do sinal da escola no outro lado da rua. Elas lhe são as preferidas, embora tiram onda com ele com os casos que inventam.
      Elas tiram onda, e ele não se emenda; ou acha legal entrar na onda, talvez pelo carinho que delas se solta. Dia lá, elas chegaram “Oi vô” e já lhe foram contando, uma atravessando a outra, que no bairro tal, a mãe e a filha na cozinha; mas que a mãe saiu à sala, olha a porta escancarada. “Nossa, alguém entrou!”, o velho se estatelou. “Ou vô, peraí “― Ianie lhe bateu de leve, no braço. ― “A menina chegou da escola e não fechou a porta, tá?”
      Bem, aí... ― nessa hora, a dona Zica, a vozinha que vende quebra-queixo, chegou à pracinha. ― Bem, aí a mãe ouviu barulho no quarto e pé por pé deu com a porta aberta. “Santa Mãe! Alguém ligou à polícia?” ― disse o velho, de olhão, estatelado. “Ou vô, peraí pro senhor ver” ― Yasmim lhe bateu de leve, no braço.
       Sim, ligaram pra polícia e a polícia entrou na casa, enquanto lá fora ó, assim, de curioso. Daí, ouviu-se o plaft e o craft de coisas caindo dentro da casa. Um soldado berrou: “Isso, segura esse safado! Arrocha-lhe o pescoço! Ah, bicho sem-vergonha!“. Aí o velho cortou o caso: “Hen, coisa boa é o bicho no xadrez. Lugar de bandido, gente perigosa, é no xadrez.”
      “Que isso, vô,  tadinho!” ― Ianie disse, e o velho  a  contestou: “Tadinho de um bandido, princesinha?”. Aí entrou a Yasmim, num ar de sorriso: “Bandido? Que é isso, vovô! Era gato do mato. Vô, a cidade e as máquinas destroem o lugar deles, e eles saem a procurar comida, tadinhos. Adeusinho, vovô!” ― disseram juntas, já indo atender ao sinal da escola
      Elas se foram, rindo o seu ki, ki, ki, uaushus, shus, shus, e o velho, caído mais uma vez na onda delas, cruzou os braços ao peito, olhou para dona Zica, e a dona Zica do quebra-queixo, disse: “Quem pensava em gato do mato? Eitas meninas, hein?!”.




quarta-feira, 7 de maio de 2014

O avesso de uma mãe

À minha mãe, em qualquer lugar que esteja na Espiritualidade, e que receba o meu abraço pelo seu dia. Bênção, mãe. Bênção, mães.


OU, eu sou o Cico. E ó, se minha mãe sonhar o que a vovó me diz, que eu posso comer de tudo das latas dela, pois não tem essa de barriga azangar... Que a vovó põe colchão no chão, do lado da cama dela, pra eu dormir de pé sujo, pois não tem essa de barata lamber... Que eu durmo com ela me contando historinha e fuçando meu cabelo sujo... Vixe, se minha mãe sonhar! Hã! Só conto que a vovó é daqui ó, pra contar historinhas.
       Aí minha mãe, no Dia das Mães, antes de a vovó chegar: “Você e mamãe têm tempo pra inventar historinhas, eu não.”. Ela é que não sabe que me atiçou a inventar historinhas. Enquanto a vovó não chegava, eu inventei O avesso de uma mãe.
       A mãe ao avesso é uma arara tamanhona. Ela saiu para buscar a comida do filhotinho, e dois homens lhe roubaram o pequetito. Aí, que ela chegou e não o viu, mas viu o jipe dos homens na estradinha... , ela pregou atrás!
       “Mãe não se vira ao avesso numa hora dessas, vó?”, perguntei, no meio da historinha. E ela: “Ô, se vira!”. Então, todo o mundo ouviu o grito de guerra dela. Só que os homens, de espingarda, se amoitaram num rancho com o filhotinho. E a mamãe arara, que ficou de tocaia, ouviu: “Vai lá e dá um tiro na mamãe arara.”
        Ai, ai, vai querendo! Que ele apontou a espingarda, vixe, ela foi que nem bala e ó, rasgou a cara dele à unha. Hen, coisa boa! Aí, o homem em ai, ai, ai, o outro saiu; e que apontou a espingarda, vixe, ela foi que nem raio e arrancou a bola do nariz dele com o bico que quebra coco. Hen, coisa boa! “Boa, mesmo.”, disse vovó.
      Daí, mamãe arara entrou no rancho, espatifou a gaiola, tirou seu pequetito de lá, e todo o mundo ouviu o seu grito de vitória, no céu. “O mundo não ouve o grito de vitória de uma mãe, vó?”. Ela: “Ô, se ouve!”. Só que a minha mãe gritou a nossa vitória de lá, da cozinha: “Cico! Mamãe! A pizza!”.
        À noite, o nheeec da porta do quarto da minha mãe me dedurou. Ela: “Lavou os pés, Cico?”. Eu, avexado: “Não.”. Ela: “Tá bem, mas só hoje viu?”. Então eu me grudei nela e lhe disse, baixinho: “Viva o dia das mães, viu mãe?”. Daí... Oh, me chego a chorar: como esquecer o aperto bom, que ela me deu? Hã?