quinta-feira, 10 de abril de 2014

Um raminho pra Ana Luísa

Ao ver a menina Ana Luísa Arruda Kunz a brincar. É dela esse texto.


QUE O DIA deu as caras, o velhinho já estava há tempo na cadeira de balanço, na varandinha da frente. Aos seus pés, a cadelinha Élen não dormia. Era o velhinho, intermitente: “Você pregou olho, Élen? Por que dormes tanto, hein, menina? Está dormindo é nada, não é?”. Sim, Élen não dormia. E como se ela lhe cutucasse o coração, ele foi rompendo seus pesares da vida: ― Sabe Élen, eu tento disfarçar a dura verdade de todo dia: onde a tal felicidade? Élen, na vida é essa ingresia... Ser feliz é uma ideia antiga, arrevesada, da qual não se aprende é nada. Não aprendi; e enquanto aprendiz, longe está o motivo de eu ser feliz. Arre! Olha as plantas, o céu, os ramos em flor. Nas cores, Élen, há rancores. E você, menina, pregou olho? Está dormindo é nada, não é? Veja: está por acabar um ninho no pé de mangaba. Por que o não terminou o passarinho? O que o fez ir-se embora, sumir, voar às vagas? É a descontência, Élen. Lhe digo: eu e o passarinho, o que não deu por feito o ninho, arcamos co’essa penitência... Mas por que você tanto late, hein, Élen? Ah, agora eu sei: é Ana Luísa que veio brincar no quintal. Brincar é sempre o seu afinal. E eu fico a pensar: donde vem o motivo de Ana Luísa estar contente? Pois ela brinca com Élen, com tudo, abertamente... Sem passado, sem futuro; brinca simplesmente. Está lá co’as flores, insetos e até com as nuvens... Agora quer acabar o ninho deixado pelo passarinho. Ó velho em ferrugem! É o que digo de mim, ao vê-la acariciar e falar às folhas; daí correr para brincar com as bolhas da água da bica. Hã! Mas isso em mim fica: Ana Luísa não força o acontecer do que deseja... Então, na minha peleja eu começo a entender o sentido de viver: toco de mim esse amargor para me juntar a eles, ao quintal. Isto, agora, é o meu afinal. Portanto, ponho-me em cores sem rancores, apanho um raminho em flor e, leve como brisa, curvo-me a ela como seu aprendido e lhe ofereço: um raminho pra você, Ana Luísa.




sexta-feira, 4 de abril de 2014

Na janelinha do sorriso da Mim

Para minha amiguinha e netinha Yasmim Brito Céo, no tempo da sua janelinha.


O MAIS CERTO é que o velhinho de cabelos de algodão, que se sentou na beira de um riozinho, fosse o Anjo da Guarda da Mim. E ele trazia na mão a Rosita, uma florzinha pra lá de convencida.
    ― Rosita, tá vendo que beleza os peixinhos? Não sonhas ser um peixinho?
       E a pra lá de convencida Rosita:
       ― Não. Eu não  quero  ser  nada, porque  eu  sou a  mais  bonita  das florezinhas. Nem quero morar em lugar algum, porque eu moro em Cantinho do Céu.
      O velhinho disse à Rosita que elas, as flores, são trazidas à Terra pelos Anjos para enfeitá-la, e que algumas se acham as tais na candura e na beleza. Mas que não é assim: há coisas e lugares tão bonitos quanto às flores e o Cantinho do Céu.
       ― Fala o que  é, quero ver ― ela se deitou na mão do velhinho.
       ― Bom, há o sorriso e a janelinha do sorriso de uma menina: a Mim.
       ― Aposto que não ― Rosita teimou.
       ― Aposto que sim ― o velhinho bateu pé.
      ― Então  como  é o sorriso  da Mim? ―  ela  ergueu as pétalas  para ouvir o velhinho.
       ― É  tão  bonito.... Você,  eu  sei: tu  és   vermelhinha  na  beira  das  pétalas e grená por dentro. Mas o sorriso dela... Ah, o sorriso da Mim! É assim, assim, assim, sabe? É tão bonito que eu não sei... É assim, assim, assim, sabe?
       ― Tá, tá.  E  a  janelinha  do  sorriso  dela? ―  Rosita  murchou  mais  um pouco o convencimento.
       ― Olha, o Cantinho do Céu eu sei,  mas  a janelinha do sorriso dela... Ah, a janelinha do sorriso da Mim! É assim, assim, assim, sabe? É tão bonitinha que eu não sei... É assim, assim, assim, sabe?
       Fez-se silêncio. O riozinho e os passarinhos não cantaram, os peixinhos não nadaram, e Rosita parecia que dormia na mão do velhinho. Daí ele carinhou uma pétala, e ela não dormia era nada: ela imaginava o sorriso e a janelinha do sorriso da Mim. Então...
        ― Vovô, eu posso morar na janelinha do sorriso da Mim?
       O velhinho não respondeu. Ele abriu a mão e deixou que um passarinho levasse Rosita, já toda desconvencida, para a janelinha do sorriso da Mim. O velhinho, dizem, é o Anjo da Guarda da Mim.