sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O raminho em flor do menino Joca

Foi ao som do “Conta! Conta! 1, 2, 3 e Conta!”, que a Professora entrou na classe. E mais: a turminha só se deu pela sua presença quando ela, erguendo as sobrancelhas, quis saber que “conta, conta, 1, 2, 3 e conta”, era aquele.
Ah, mas o  Tinim, menino  de remoinho na testa e afiado  que  só  ele, palavras da Professora, quase não a espera perguntar o que era aquilo: – É a Laura, fessora, que começou uma historinha e não quer contar...
    Não deu outra: a Professora  deixou suas coisas na mesa e ó: Ô, Laura! Conta, Laura! Aí a Laura, que sabe tudo e mais um pouco, pôs todo mundo sentado no chão e em roda, com a historinha “O raminho em flor do menino Joca”. Onde ela aprendeu? Hã! Disse o Tinim que foi com um tio dela...
      Depois do “bem, foi assim”, Laura esticou a historinha. E na historinha, o menino Joca, no dia de N. Senhora Aparecida, que tinha cântico na igrejinha, pulou mais cedo na cama da mãe.
    Abraçado à mãe, Joca disse que havia sonhado com seu pai. A mãe, alisando-lhe o cabelo, quis falar sobre sua separação conjugal, mas mudou o assunto para o ensaio do cântico das crianças, naquela manhã.
     Joca insistiu, a mãe cedeu – porque é manteiga ao fogo o coração de mãe – e ele foi contando que viu seu pai num campo, a procurar um raminho em flor. Ia de lugar a outro e, sem encontrar o raminho, lágrimas lhe brotaram.
    Era estranho. Joca via um raminho florido, mais à frente, mas não podia ajudar o pai a vê-lo. Era estranho. Joca via o pai; mas o pai não via-o. Então ele fechou os olhos e se pôs a rezar para que o pai encontrasse o raminho em flor.
     Aí... Ah, aí! Aí que ele abriu os olhos, e o pai tinha acabado de colher o raminho em flor. O pai passou por ele, sorrindo e beijando o raminho, Joca esticou o braço para lhe tocar, mas nada. Acordou, nesse instante.
    Agora, que Joca e seus amiguinhos ensaiavam na igrejinha o cântico a Nossa Senhora Aparecida, eis um vulto de homem à porta e, daí, seguindo à frente do claro da manhã que invadia a igrejinha.
   O cântico parou, e as pessoas se voltaram  àquele homem que adentrava a passo lento. O cântico parou, mas recomeçou depois que Joca correu e abraçou o homem pela cintura. “Pai!” – Joca disse, chorando.
     Emoção maior  se deu quando o pai tirou do bolso um raminho em flor e o ofertou a sua mãe. Estranho, mas aquele raminho era o raminho que Joca havia visto em sonho... Bom, do final feliz fica o berro que Joca soltou: “É esse! É esse, o raminho em flor que vi em sonho... É esse, sim!”.


À Professora Ana Luísa dos Santos, no distrito de Jurupema.


17 comentários:

  1. Hola, Buriti! Otra emoción. Muy lindo! Abrazo, amigo!

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  2. Emocionante. Fez-me lembrar um sonho que tive com meu pai, depois que ele se foi. Bom final de semana! Carinho da Cida.

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  3. Que lindo Márcio ! Realmente sua ternura ao escrever seus contos é tudo de bom . Meu carinho.

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  4. Para Nossa Senhora Aparecida tudo é possível. Bela historia que reverencia ela, a nossa Padroeira - amanhã é seu dia. Adorei a sua homenagem. Foi o o que fiz hoje com a crônica '' O Que Farei Amanhã?'' mas, acho que ninguém percebeu.Ah, Marcio! (Risos)

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  5. Márcio
    "Existem pessoas que não se tornam especiais pela maneira de ser, ou de agir, mas pela profundidade com que atingem nossos sentimentos."
    Obrigada pelo carinho.

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  6. Você sempre escolhe o momento especial para contar a especial história e irrigar de novas emoções a nossa alma! Foi com lágrimas escorregando pelos olhos que reli a encantadora história do raminho em flor do menino Joca! Bjs na alma, grande encantador de palavras!

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  7. Marcio, sua sensibilidade é encantadora. Seus contos emocionam e seu estilo de narração nos prende até o fim da história. Adorei! Abraço.

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  8. Marcio, que belo texto. Tão sensível que nos emociona. Quantos raminhos de flores ainda procuramos ,mas mesmo em sonho não o encontramos. Além de ser uma homenagem à Nossa Senhora Aparecida. Abraço!

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  9. João Carlos Silvério Duarte13 de out de 2013 22:28:00

    Aqui em minha cidade, ontem (12/10), muitos fogos explodindo o dia inteiro, sobretudo ao meio dia. Hoje, ao ler sua crônica, fiquei pensando: Que bom seria se cada explosão de ontem, virasse hoje um raminho em flor.....

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  10. João Carlos Silvério Duarte13 de out de 2013 22:31:00

    Em minha cidade, ontem (12/10), muitos fogos explodiram o dia inteiro, sobretudo ao meio dia. Hoje, ao ler sua crônica, fiquei pensando: Que bom se cada explosão de ontem virasse hoje um 'raminho em flor'.....

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  11. Teu conto me emocionou, Marcio, porque eu geralmente vejo nos meus sonhos coisas que estão para acontecer. Que bom que o sonho do menino foi bonito! Adorei...

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  12. Que lindo ! Parabéns pela história, gostei !

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  13. Boa noite, Márcio. Muito bonito o texto, parabéns.
    O menino certamente viu algo bom acontecendo sem saber, que foi a reconciliação dos pais.
    Emocionante.
    Parabéns por conseguir prender a atenção.
    Tenha uma abençoada semana de paz!
    Obrigada pelo carinho!
    Beijos na alma.

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  14. As crianças sempre, em sua inocência, passando à frente dos adultos. Um lindo conto infantil que provoca reflexão profunda nos adultos.

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  15. A dor da separação deixou de existir quando a predestinação do menino se fez presente na vida dos pais. Um simples raminho de flores modificando através do sonho a vida de três pessoas que precisavam se reconciliar com o amor. Que todos os meninos que passem por essa problemática, possam transformar seus sonhos frustrados em realidade belas e seguras, não é, Márcio? Foi mensagem de esperança que você nos passou e com muito capricho, de modo simples e puro, que só as crianças são capazes de ter. Parabéns!

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  16. Então de sonhos a realidade floriu em raminho. E a coisa bonita de sempre de Marcio. Um prazer essa leitura.

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