segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O escuro que ela carrega

Na sala à meia-luz, e as horas indo pro meio da noite. Frequente desalento. Corpo cansado tal qual a árvore cujas folhas teimam em resistir ao inverno. O rosto caído nas mãos indicia o espírito preso no escuro da recaída com sabor da falta que ele lhe faz.
Ele se fazia na canção da primavera que embala a vida, o espelho dos seus planos e a fonte do seu riso. Viviam o amor impermisto, livre das farpas disso e daquilo, e em que o pedido de perdão era algo desconhecido. Amor sem promessas e contexto do passado, pois era do agora – tanto que nada existia para eles fora da aura desse amor que os fazia brilhar.
     Agora, a falta que ele faz é o escuro que a impõe a deitar nas mãos o rosto e sofrer pelo choro segurado. Ah, se pudesse abrir a janela e desatar a gana de chorar! E se pudesse gritar o nome dele, e se o grito pegasse eco, e se o eco o levasse pro mundo, precedido de uma frase vulgar... Uma frase que estilhaçasse o desalento que se cria num momento assim; uma frase vulgar assim: “Que se dane o mundo!”.
     Não. Não se pode gritar, e todo cuidado é pouco para que o choro não entorne do seu poço. Não. Todo soluço é contido, pois há um homem a fazer leitura à luz do abajur da sua cama. Um homem que a espera e que puxa o lençol para recebê-la. E assim que ela, carregando o seu escuro, se deita voltada para a parede, encolhendo as pernas e fechando os olhos, ele a cobre e, pacientemente, lhe beija o rosto: “Durma bem, amor”.
   Na cama, à meia-luz, e as horas indo para o claro do dia. Frequente desalento. Corpo cansado tal quais os olhos que vararam a noite, fisgados ao teto. Ela está quieta, dominada pela pedra do desalento que a falta que ele faz rolou sobre si. Está quieta e não sabe que, a umas quadras dali, alguém, em estado mediúnico, assistira ao espírito do homem que lhe faz falta chorar de amor por ela, ao lado dela, no momento em que ela se via na sala à meia-luz, e as horas indo pro meio da noite.




17 comentários:

  1. Marcio! Estoy muy agradecido por la invitación leyó su emoción prosa. Grandes sorpresas allí. Abrazo! Stella. Minas Gerais es nostalgia.

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  2. Triste, mas não deixa de ser um belo texto. Tudo de bom, que Maria nossa mãe esteja sempre com você! Carinho da Cida.

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  3. Querido Marcio, este conto triste, me surpreende, de maneira muito intensa... pois é da tristeza que você o criou, fluiu de uma fonte que as pessoas no geral, não gostam de entrar em contato, mas eu gosto, gosto de sentir, gosto de sentimento... gosto de tudo que faça sentido... Lindo de viver... muito interessante, mas esse conto não é um conto infantil, talvez juvenil... você tem mais contos assim? Gostaria de ler.... Ah to terminando a leitura dos contos viu! BjZ

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    1. Querida Zeni! Meu coração agradece a leitura e comentário. Este não é um conto (eu o construí com intenção de torná-lo o assunto numa prosa) infantil, nem juvenil. É sim, um enredo triste, mas que está, infelizmente, solto na vida. Soube, enquanto o escrevia, que a segunda revelação (a presença do espírito ao lado de Cecília, que seria Cecília e não "Ela") iria causar impacto. Mas topei a parada, depois de pensar algumas vezes se o publicaria ou não. Agora a prosa está aí, pronta para o "abraços e as rejeições". O interessante, enquanto na dúvida se publicaria ou não, é que recebi alguns "impulsos" para publicá-lo. Estou mesclando textos. Ora infanto-juvenil, ora leitura quase que exclusiva para leitor (a) adulto. Abraço.
      Márcio Buriti

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  4. Um belo e reflexivo texto, escrito de maneira extremamente lírica e poética. Depois a poeta só somos eu e o Odir. É mole?

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  5. Excelenteeeeeeeeeeeeeeeeee, um conto que encanta pela profundidade do texto e a mensagem para reflexão, beijokas

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  6. Ana Luísa 09:08
    Bom dia Márcio. Tudo bom? Poxa...como me identifiquei com o texto (prosa).
    Lindo...sua sensibilidade eu já conheço, mas "um dia" eu vou conhecê-lo pessoalmente.
    Beijos.

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    1. Oi Ana Luísa! Será grande prazer conhecê-la. Obrigado pela leitura e comentário. Até!

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  7. Boa tarde!
    Tens textos muito bem escritos aqui... li este e o anterior.. ambos profundos, solidificados em emoções humanas muito fortes... muito bom de ler, por sinal.
    Um abraço!
    http://duasepocas.blogspot.com.br

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  8. Marcio, que beleza de texto! Há poesia nos seus escritos, cheios de uma sensibilidade adorável. Quando leio seus contos infantis, me delicio. Hoje, vejo um texto diferente, igualmente encantador. O sofrimento contido, a perda de alguém que não pode ser chorado, a presença espiritual dele. Meus aplausos. Abraço.

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  9. Você escreveu de uma maneira tão bonita, Márcio... me fez lembrar de muitas coisas... ficou lindo!

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  10. Não sei qual a mais significativa expressão do belo entre poesia e prosa. Só sei que a prosa-poesia é mais liberta ao espaço mental de quem a compõe, dando ao autor asas sublimadas que lhe permite voos além dos limites parnasianos. Um belo escrito, poeta Marcio Buriti! Forte abraço, Odir Milanez

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  11. Voltando para reler...

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  12. Boa noite, Márcio.Um texto diferente dos que costumo ler aqui, mas tão bonito e de uma sensibilidade enorme.Parabéns!

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  13. Você é fantástico, caro amigo, de um talento nobre, que independente do texto, tem sempre qualidade ímpar, cativando e encantado oquem lê!! Um forte abraço, tudo de bom.

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  14. M A R A V I L H O S O!!!!! E VERDADEIRO
    Beijo
    Izabel Christina

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  15. Pois então, é tanta coisa que a gente nem desconfia, inclusive esses descaminhos tão encaminhados sem a gente saber. O conto é lindo demais e a surpresa é sempre boa. Parabéns, poeta Marcio.

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