terça-feira, 18 de junho de 2013

Um texto qualquer de Dorinha


A MENINA Dorinha está à mesa. Morde o lápis, olha o teto, se perde no relógio na parede: tic-tac, tic-tac. Olha para as unhas, esfrega a canela com o pé. A ideia está em branco; a folha também. O trabalho da escola, um texto qualquer, cadê? Ó Mãe Maria de Nazaré!
   Mãe?Mãe, a sua está também à mesa. Mãos estendidas, olhos grandes, fechados, e as rugas morando em volta.As rugas acham uma beleza, quando não pintadas”, Dorinha pensa. Se a mãe a ouvisse iria-lhe dizer: “Dorinha, as rugas também querem ser livres".
    Olha a mãe, morde o lápis e escreve.
  "Queria ter os olhos verdes e  grandes da minha mãe. As sobrancelhas largas e altas também. Queria ser a minha mãe, fosse eu grande, de tanto querer o que ela tem... O nariz fino e retinho, e a boca do jeito que está: sem batom. Boca bonita não precisa de batom, o vovô disse, um dia".
   Olha para as mãos da mãe, morde o lápis e escreve.
   "As mãos da minha mãe são estragadas. Também elas não se cansam. São fortes, mas nunca me bateram... Só me fizeram carinho. Queria ter as mãos da minha mãe, fosse eu grande, porque, eu acho, elas não são dos braços, mas do coração. Mesmo sem o gostinho das luvas e dos anéis, eu queria ter as mãos da minha mãe... Com essa aliancinha que meu pai lhe deu..."
   Quer tocar as mãos da mãe, mas recua. Olha para ela, e ela está quieta, quietinha. Pensa: “Minha mãe tá esquisita... Ah, mas agora eu me lembrei de que ela diz sempre que eu pareço com meu pai..."
   Morde o lápis e escreve.
  "Queria ter conhecido meu pai. Minha  mãe  diz que ele era muito inteligente. Então, meu pai ia-me falar de uma coisa que ninguém me fala, que é o porquê de eu sentir saudade dele sem nunca ter estado com ele. Um dia, vou escrever muitos cadernos sobre minha mãe e meu pai. Mas agora é um texto qualquer; trabalho que a tia passou".
   "Ah, mas a tia... Por que ela não passou desenho? Ontem, eu desenhei nuvens no retrato do meu pai. Minha mãe diz que ele nos vê por trás das nuvens. Então eu fiz nuvens ralinhas, que é pra ver meu pai olhar pra gente, atrás delas".
   "Mãe...Ô mãe!"
   Quer falar à mãe, mas ela não responde. Deita o lápis, toca as suas mãos, mas ela não responde.Daí se atraca com a mãe. Medo de a mãe ter... Mas a mãe dá sinal de vida e abraça Dorinha."Estava rezando, filhinha, e dormi. Desculpa. Fez o trabalho que a tia passou?"
   "Acho que sim... Fiz sim”, completa com firmeza. “Mas não te vou mostrar, tá?
   No dia seguinte, porém, a mãe e todo mundo da escola, e outro mundo de gente, saberia do trabalho de Dorinha pontuado com a nota 10. O que ninguém, mas ninguém saberia era do lápis carcomido que ela ó...


11 comentários:

  1. Tio Marcio!!! So vc msm!!! Quase pude ver em minha frente, os olhos verdes de vovo, e suas maos estragadas e forte, mas q sempre nos fizeram carinho.... Parabens Tio admiro mto sua sensibilidade com as pavras, me deixou emocionada com o texto da Dorinha!!!

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  2. Meu caro poeta, você é fantástico!! Sempre nos encantando com teu magníficos textos. Algumas pessoas têm o dom de Deus em tuas obras, você é um destes privilegiados. Um abração.

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  3. A pior saudade é aquele de algo que nunca vivemos ou não tivemos. Adoro ler você! Tudo de bom e que tenha boas inspirações, estarei aguardando mais um texto. Carinho da Cida.

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  4. Que lindo, Marcio! Sua referência ao "as mãos são do coração", nesse contexto, ficou perfeita. Seus contos mostram uma sensibilidade que sempre aplaudo. Abraços.

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  5. Aiaiaiai... vc falou de vários (ex-)alunos que eu costumo ver ansiosos, mascando o lápis ou a caneta como se sob tortura para produzirem um texto, uma redação, nas aulas de português! Você é sempre magistral em suas descrições, em suas prosas poéticas, em tudo o que escreve; as palavras brincam doce e maravilhosamente de saírem de sua alma e das pontas de seus dedos com a mesmo encantamento que o coelho, a flor, o lenço e tantas outras coisas saem da cartola do mágico sob os olhos e corações deslumbrados das crianças! O Espírito Santo continue te iluminando, te inspirando sempre! Grande abraço, querido poeta encantador de palavras!

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  6. Bom dia meu amigo querido. Poucos, muitos poucos tem esse dom, essa candura, você é magnífico, parabéns! Um beijo, fica com Deus... *Aparece nas minhas digitais, vai ser um prazer te receber...

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  7. ...E Dorinha cresceu, tornando-se uma grande escritora! Linda história, Marcio!

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  8. Boa noite, Márcio. Emocionante o seu texto! Teve uma hora que meu coração foi ficando miudinho que só vendo...Inda bem que era só sono. Abraço da amiga da Serra.

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  9. ...hummm...que tão lindo, me emocionei!!! Parabéns Márcio, por esse enorme talento que tu tens! abraços, ania...

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  10. Delicadeza,sensibilidade e maestria na colocação das palavras.
    Parabéns por mais essa brilhante criação!Inês

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