quarta-feira, 26 de junho de 2013

O anjinho Mim e o velhinho Sô Ridico

Para Yasmim, Mim, Mimim como diz seu Vô.



Mim e suas priminhas. Brincavam de boneca, ao fundo do quintal. Quando é fé, um bandinho de Sofrês passou para o quintal de Sô Ridico: vruuuruuup!
Mim colou o ouvido no muro: não houve tiro de espingarda nem nada. E se não se ouviu nada, sinal de que Sô Ridico nem seu cãozinho es-tavam em casa. E se eles não estavam em casa...
    Mim subiu no muro, garrou o galhão e se aninhou no pé de jabuticaba. Tof, tof, tof!, era jabuticaba, cada bichona assim, estalando no céu da sua boca. E ela atirava jabuticabas às priminhas.
   Atirava, porque ouviu o “au!, au!, au!” do Espoleta, o cãozinho de Sô Ridico. Não bastasse o “au!, au!, au!”, ouviu o “xap!, xap!, xap!” das pisadas do velhinho rídico, que não dava fruta a ninguém.
   Ai, ai, ai, São Gabriel! E agora? Espoleta latindo, esticando o pescocinho para ela, e o velhinho embaixo, espingarda ao ombro. Boca cheia de casca, o corpinho grudado no galhão, ela viu os Sofrês voando longe, no azul do céu. Jeito foi pedir a São Gabriel, e o socorro veio: o velhinho voltou para dentro com seu cãozinho.
   Pense numa coisa boa pra rir, que ela saltou e caiu de bundinha no chão... Pense também em que ela virou, quando o velhinho bateu na porta, chamando a sua mãe... Uma estatuazinha? Uma pedrona de gelo? Pode ser, mas Mim foi às nuvens, ao ouvir o velhinho: “Dona, toma aqui jabuticaba do meu melhor pezão... A senhora deve gostar, e sua menininha também”.
   Ufa! Mas Mim nunca ficou livre de uma coisa: o sorriso escondido, zombeteiro, que Sô Ridico lhe dava, assim que ela passava para ir à escola. O sorriso era o mesmo que lhe dizer: “Pensando que não te vi, roubando jabuticaba? Hã? Ah, menininha bonita!”.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Um texto qualquer de Dorinha


A MENINA Dorinha está à mesa. Morde o lápis, olha o teto, se perde no relógio na parede: tic-tac, tic-tac. Olha para as unhas, esfrega a canela com o pé. A ideia está em branco; a folha também. O trabalho da escola, um texto qualquer, cadê? Ó Mãe Maria de Nazaré!
   Mãe?Mãe, a sua está também à mesa. Mãos estendidas, olhos grandes, fechados, e as rugas morando em volta.As rugas acham uma beleza, quando não pintadas”, Dorinha pensa. Se a mãe a ouvisse iria-lhe dizer: “Dorinha, as rugas também querem ser livres".
    Olha a mãe, morde o lápis e escreve.
  "Queria ter os olhos verdes e  grandes da minha mãe. As sobrancelhas largas e altas também. Queria ser a minha mãe, fosse eu grande, de tanto querer o que ela tem... O nariz fino e retinho, e a boca do jeito que está: sem batom. Boca bonita não precisa de batom, o vovô disse, um dia".
   Olha para as mãos da mãe, morde o lápis e escreve.
   "As mãos da minha mãe são estragadas. Também elas não se cansam. São fortes, mas nunca me bateram... Só me fizeram carinho. Queria ter as mãos da minha mãe, fosse eu grande, porque, eu acho, elas não são dos braços, mas do coração. Mesmo sem o gostinho das luvas e dos anéis, eu queria ter as mãos da minha mãe... Com essa aliancinha que meu pai lhe deu..."
   Quer tocar as mãos da mãe, mas recua. Olha para ela, e ela está quieta, quietinha. Pensa: “Minha mãe tá esquisita... Ah, mas agora eu me lembrei de que ela diz sempre que eu pareço com meu pai..."
   Morde o lápis e escreve.
  "Queria ter conhecido meu pai. Minha  mãe  diz que ele era muito inteligente. Então, meu pai ia-me falar de uma coisa que ninguém me fala, que é o porquê de eu sentir saudade dele sem nunca ter estado com ele. Um dia, vou escrever muitos cadernos sobre minha mãe e meu pai. Mas agora é um texto qualquer; trabalho que a tia passou".
   "Ah, mas a tia... Por que ela não passou desenho? Ontem, eu desenhei nuvens no retrato do meu pai. Minha mãe diz que ele nos vê por trás das nuvens. Então eu fiz nuvens ralinhas, que é pra ver meu pai olhar pra gente, atrás delas".
   "Mãe...Ô mãe!"
   Quer falar à mãe, mas ela não responde. Deita o lápis, toca as suas mãos, mas ela não responde.Daí se atraca com a mãe. Medo de a mãe ter... Mas a mãe dá sinal de vida e abraça Dorinha."Estava rezando, filhinha, e dormi. Desculpa. Fez o trabalho que a tia passou?"
   "Acho que sim... Fiz sim”, completa com firmeza. “Mas não te vou mostrar, tá?
   No dia seguinte, porém, a mãe e todo mundo da escola, e outro mundo de gente, saberia do trabalho de Dorinha pontuado com a nota 10. O que ninguém, mas ninguém saberia era do lápis carcomido que ela ó...


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Menino levado


―  Olha esta... Esta foto tem uns... Ah, uns... Setenta anos, ou mais. 
― Era a sua casa? 
― Sim. A pontinha da outra que se vê, era a casa da Clarinha. 
―  Vocês tinham a mesma idade?
― Sim. Coisa de 6 ou 8 anos. Um dia, Clarinha roubou retalhos da sua  mãe, e eu os roubei da minha mãe, porque elas teciam colchas de retalhos, e a gente foi brincar de Jane e Tarzan. Amarramos os retalhos uns nos outros, e fizemos o cipó. Daí, eu subi no pé de manga rosa, atei o cipó retalhado num galho, soltei o grito do Tarzan, “OuuuOuuuou”, e saltei. Que saltei, o cipó arrebentou e eu caí de bunda, em cima da Clarinha. Três galos cantaram na sua cabeça, e eu fui chamado, ou gritado, mais uma vez, de “menino levado” 
    ― Ah, ah, ah! Olha esta aqui... Uma cristaleira das mais lindas! Era a da sua mãe?
    ― Sim. Um dia, o relógio de parede suspenso sobre a  cristaleira, eu  pego  e subo nela para tirar o relógio da parede, desmontá-lo, e ver como é que funciona um tic-tac. Aí a cristaleira, que tinha um pé defeituoso, tombou-se sobre mim, e eu fiquei desacordado dentro dela. Os cristais ó, babau! Minha mãe gritou à mãe de Clarinha que um mau espírito havia derrubado a cristaleira, e que ela fosse ajudá-la a erguê-la. Lembro-me que, ao acordar, ouvi minha mãe se lamentar: “Sunga de lá, comadre, que eu não sei cadê o Tinim pra me ajudar... Nestas horas, ele some”. Ao bulirem a cristaleira, porém, viram minhas pernas de maçarico; e com três galos cantando na minha cabeça, eu fui chamado, ou gritado, mais uma vez, de “menino levado”.
    ―Ah, ah, ah! Nossa! E esse cãozinho lindo aqui?! Fazendo pose, o danadinho...
   ― Sim. Era o Pitoco. Um dia, nem é bom lembrar, morreu um velhinho lá... Amigo lá de casa e de todo mundo. Então minha mãe e meu pai decidiram de a gente ir velar o morto: fomos nós e o Pitoco. Acontece que o Pitoco não gostava de gatos, a não ser da Nina, que era nossa. Aí, que todo mundo rezava, Santa Mãe, uma gatinha apareceu; e, não tendo saída ao Pitoco, correu pra debaixo do caixão sobre cadeiras. Nem vi que gritei: “Pitoco! Não!”. Ai, ai! Que fui agarrá-lo, eu escorreguei e me bati no caixão... Nossa, o morto vazou do caixão e, disseram as rezadeiras, ele olhou pra elas com um olhão ó, e elas caíram na rua. Daí, meu pai e uns homens arrumaram o morto no caixão; e, com um galo no osso da face, eu fui chamado, ou gritado, mais uma vez, de “menino levado”.
    ―Ah, ah, ah! Ah, e essa? É uma procissão?
   ―Sim. Um dia... Deixa essa e as outras fotos para amanhã, minha velha namorada. É que já são... Ih, quase 11 horas! E como amanhã é meu aniversário... Falei-te que faço “Sete Sete” amanhã? OK. Então vem. Vamos aproveitar mais a nossa primeira noite juntos... Vem.
    ―Eta, menino levado! ― disse a vovó, de mão dada com o vovô, a caminho do quarto. 



terça-feira, 4 de junho de 2013

Conta a minha historinha?

Eram seis. O pai, a mãe, Dinho, irmãozinho mais velho que Juquita, o cãozinho Cipó e Zeca, o papagaio.
Eram felizes até que um dia um vento nunca sentido, trovões nunca ouvidos, dos de balançar prateleira, e um raio, uma chicotada de raio que caiu sobre a rocinha aonde o pai trabalhava.
Daí eram cinco, e seu mundo foi ficando cinzento. E quase sem cor de tudo ficou quando Dinho se levantou antes do galo e sumiu das suas vidas.
    Daí eram quatro, e Juquita escreveu de vermelho na sua historinha: Não há nada mais amargo quanto me foi sentir os soluços da minha mãe. Nem que o Céu e as estrelas e os passarinhos deixam de existir, isso não é mais triste que foi ver minha mãe em pranto.
    Um dia, Juquita não foi à escolinha. Deixou-se ficar com Cipó e Zeca à jabuticabeira. Ficou a riscar o chão com graveto e a olhar à mãe de rabo de olho. E quando seus olhares se encontraram, ela o chamou: “Vem cá, filhinho!”
    Minha mãe recomeçou a nossa vida, ele escreveu em vermelho. Pegou as minhas mãos, olhou-me nos olhos, disse que, a partir daquele momento, Santa Terezinha estaria com a gente. E aí o mundo foi pegando suas cores, e o trilho torto da nossa vida se endireitando.
    Sim, os pássaros, aos bandos, voltaram a revoar sobre o quintal, Cipó a saltar nas pernas de Juquita, chamando-o para brincar, e Zeca tagarelando como nunca. E foi aí que, num quase amanhecer, Juquita dormindo aos pés da mãe, ela o acordou: “Juquita! Juquita! Que é que o Cipó tanto late?”
    Seria o quê, um pobre tamanduá caçando formigas? Ou um guará? Ou um cãozinho abandonado, faminto? Juquita enfiou os pés nas chinelas, esfregou os olhos e saiu. Abriu a porta bem devagar e se agachou para melhor visualizar o que era. E, para lhe soltar lágrimas no rosto, a sua frente estava o seu irmãozinho Dinho.
    Mãe sente as coisas, e a sua mãe já estava no meio da saleta, chorando pela emoção da volta do filho. Era o calor do seu filho no seu abraço! Mas não foi só isso: Juquita viu, ali, uma mulher de véu cinza e vestido de muitos panos em amarelo-creme ao lado do seu pai. Eles sorriram para ele e sumiram.
    Juquita desconfia, e ainda não o disse à mãe, que a linda mulher com seu pai, ao abraço da sua mãe no Dinho, seja Santa Teresinha. E destacou: "E a gente é feliz de novo."