sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A derradeira prosa


AMIGOS se sabem; a estrutura basta, e pronto. Ora, ao tempo de criança, quando o mundo de um se fez deserto, e que a sede de um amigo se fez mais forte que o deserto, eis o amigo. Daí, já no primeiro segundo, e por toda a estrada que pisaram, nenhum precisou pensar em voz alta, pois o nexo da amizade basta. 
   Cada um com sua vida, na tangência de tocar seus espinhos e colher alguma flor. Agora, estão eles na estação. Um espera o trem. Calados, olhos fechados, os dois se preparam para a separação, sabendo-se esteados pela amizade. 
     As palavras, entre eles, jamais se fizeram urgentes. Foram ditas, sim; porém, foram elas pleonasmo aos ditames do pensamento. Agora, um deles abre os olhos e tira papel e lápis da jaqueta que o protege do vento. E o vento, o vento que anuncia o trem, surge na curva da estrada. Atrás dele vem o trem, e ele sabe que precisa escrever o que lhe fala o pensamento do amigo, antes que ele parta. 
   E como lhe chegou o vento, chegaram-lhe os ditames do silencioso companheiro. Chegaram à forma mais simples da pureza. Tão puros que escrever suas palavras foi como se sentar na terra para ver nascer uma flor. E não por coincidência, posto que a coincidência seja um luar que não existe, o amigo lhe falou de uma flor. Uma flor que não nasceu no chão, mas no seu coração. 
     O escritor sabia da flor; no entanto, não sabia que o amigo pretendesse soltar a paixão do cultivo dessa flor aos que ficariam na estação... Uma flor rósea; rosa. Uma rosa que ele levou ao fundo dos olhos ao tempo da escolinha. Agora, décadas depois, sem que esperasse, eis a mulher, a rosa do tempo de menino preenchendo os sentidos da sua vida: rosa sentido branco, vermelho bordeaux, verde, amarelo, violeta, vermelho... 
    Rosa vermelha? Sim, vermelha até que um vento inventado a despetalou do seu coração. Foi-lhe tão brusco o vento, e tão ruim não sentir sua raiz no coração, e tão ruim o vazio que ela deixou, que ele, o passageiro único do trem, deixou vazar as lágrimas todas do poço do fundo dos olhos. 
    Agora, o vento que anunciava o trem se desfez, e o trem surgiu na curva. Os amigos se despediram, e, no apertar firme de mãos, e sem que usassem de palavras, o que ficaria na estação tirou do bolso do passageiro a foto em face dupla, na qual se via a rosa, a mulher do seu coração. 
    O trem não pode esperar, e ele embarcou de olhos fechados, cansados de derramar lágrimas, para outro lugar; um lugar em que se sentaria saudoso, mas esperançoso de reencontrar, mesmo ali, a rosa, a mulher que foi dele um dia. Esta foi a derradeira prosa que do amigo brotou.




7 comentários:

  1. Noooooooossa que maravilha,Marcio!

    Um encanto e esse lirismo faz bem. ADOREI te ler! Emocionante prosa! abraços,chica

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  2. Emocionante quando se trata de amizades. Tenha um bom final de semana amigo! Carinho da Cida.

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  3. Você, grande encantador de palavras, sabe sempre como ir direto ao âmago! Só quem é Amigo e tem o privilégio de contar com amigos de verdade conhece o valor e a dimensão real desse diálogo que se trava no silêncio, "QUANDO DOIS SE PREPARAM PARA A SEPARAÇÃO, SABENDO-SE ESTEADOS PELA AMIZADE." E o vento, o vento sim, leva os homens. "Eles não têm raízes. Eles não gostam de raízes." Mas "as estradas vão sempre todas em direção aos homens" (Saint Exupèry) e por elas é que sempre encontraremos aquela(s) flor(es) que tantos discursos dirá(ão) à nossa alma, que de modo tão especial irá(ão) perfumar a nossa vida! Flor(es) plantada(s) pelos rastros daqueles que de forma tão especial cruzam os nossos caminhos. Obrigada por semear tanta beleza e ternura, querido poeta!
    Beijos no coração.
    Lene

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  4. Boa tarde, amigo Marcio!
    Tudo bem?
    Agradeço o convite para visitá-lo.
    Parabéns pelo espaço tão aconchegante e maravilhosos pensamentos!
    Nessa construção tão envolvente, vale ressaltar que a distância pode dificultar, mas jamais terá forças para apagar belos sentimentos...
    Uma amizade sincera, unirá para sempre duas almas!
    Amei!
    Que a inspiração divina sempre repouse no seu coração!
    Muita luz!
    Abraços poéticos.
    Márcia Ramos

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  5. " o nexo da amizade basta"- profundo e filosófico.
    Os amigos se bastam mesmo à distância. Eu que o diga. Quanto aprendi com você! E o quanto aprendo!
    A prosa à distância é válida quando amigos se entendem e nunca esquecem " rosa vermelha" que marcou a sua amizade.

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  6. Preciosidade essa, de quando as palavras não precisam ser ditas por redundarem com os ditames do pensamento... O valor está aí, em cada palavra desse texto bonito. Em doses homeopáticas, ler Buriti é bom! Vou melhor que cheguei. Abraço.

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