quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Os palitos de picolé

Cochilou no banco da pracinha, ao clamor de chuva das cigarras; porém o movimento de alguém no banco o despertou: foi o de uma menina-moça, que ali se sentou para chorar.
O rosto escondido pelos cabelos, e o impertinente inspirar pelo nariz, não o deixaram alheio ao desgosto que ela vivia. “Perdão, menina. É coisa de namoro?”.
       Sem olhar para ele, ela balançou a cabeça que não.
     Um tempo para assobiar uma modinha, olhando as ruas e a ela, de rabo de olho, e ele soltou a pergunta com a qual acertaria em cheio: “Ideia de deixar a família, fugir de casa?”.
     Ela balançou a cabeça que sim, e ele procurou no seu baú de vida a tangência que encolhesse a sua ideia; que a reduzisse ao pingo do i no espelho do céu: “Vamos comer picolé?”.
     Ela hesitou, mas balançou a cabeça que sim. E que comeram picolés, ele lhe pediu que quebrasse um palito. Ela o fez; porém não quebrou quatro palitos, um sobre outro: “O que quer dizer com isto?” – ela soltou a voz cansada de choro.
    Ele falou da sua vida, do refúgio  ao colo da mãe nas noites de tempestade, da segurança que tinha ao lado dela, do pai e dos irmãos. E que a mãe e o pai e os irmãos se foram para o outro plano de vida, ele sentiu na alma o choque da sensação de desamparo; choque que ainda lhe corria na alma.
       ―  Tá.  Mas por que eu quebrei  os palitos de picolé?
       ― Sem  família  –  ele disse,  calmamente. – a gente é frágil que nem um palito de picolé; mas com a família a gente é forte que nem quatro palitos de picolé, um sobre outro.
     No silêncio, entre eles, a mocinha, pensativa, escorou-se no banco, arrumou o cabelo bonito atrás das orelhas e, olhando para a figueira, cochilou. O velhinho a acompanhou nesse soninho e, ao acordar, viu que dela ficaram quatro palitos de picolé no banco, um sobre outro, amarrados por fios de cabelo. Aí ele abriu um ar de sorriso e se foi para casa.



sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A saudade à luz de vela

Caro amigo,


SIM, eu sei, e sei por prenda possuída o que é a saudade, porque aprendi o que é o amor – como um menino, que precisa aprender sobre o vento para saber da sua pipa no céu. Ah, a saudade! Que energia contínua a correr no fio das nossas vidas! Intrometida, entra nas minhas noites e faz da feição de alguém a espuma do meu travesseiro; e o sorriso dessa feição ainda é os arbóis dos meus dias. Ah, amigo, eu muito sei da saudade! Como o sei! Ela, se se faça em um vir a ser sem pausa, atiça a sensação de estar-se parado em um ponto sem saída. Vivi isso, a comprar a saudade por um dote, à face da letra, quando o beija-flor deixou a flor, e a flor parou na vida até um passarinho lhe abanar as pétalas com as asas. Mas, e isso eu lhe digo submisso à herança que um amor me deixou, a saudade é de vários conceitos, e vastos são os caminhos para entendê-la. Uma hora, ela é grande como o mar, inavegável; outra hora é um descampado imenso sem o risco do horizonte, sem casa de morador; intransitável. E periga, quando uma alma não se contém aos súbitos e existenciais inesperados, posto que se faça, também, em um tipo de vento que sopra abrindo caminhos que logo se entortam e descambam para fendas em que a vida se pode mergulhar. La’lguma vez, amigo, ela abrasa como o sol intolerante, e é gélida como a minha cama ou um poço recoberto de sombras. Agora, à luz da vela atenta à cabeceira da minha insônia, a saudade é-me álgida; tal à sensação de vazio, posto que o vazio se faça em mim pela simples falta de levar as mãos de alguém aos lábios e beijá-las com a leveza da vontade. E os lábios, sequiosos por murmurar a alguém o que segura há tempo, deixará escapar o “eu te amo” que a saudade cuidou de guardar.


Bom ano-novo, amigo.



quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A mulher só e o cãozinho misterioso

SERIA mais um dia da vidinha de regar as plantas, tomar o café e ir dar corda à solidão, na rede da varanda. Isso se não lhe batesse a falta de energia e concentração, que, da noite para o dia, se fez dona dos seus anos de vida.
     Num esforço hercúleo chegou ao posto médico. No primeiro parecer, nada de importante diagnosticado; um desconforto virótico. Mas dias depois, num exame minucioso, revelou-se a insuficiência renal como a força motriz da sua revolta.
     O que  eu fiz, ó Vida, para ser  entregue às clínicas e às picadas de agulha? No auge da revolta, Deus lhe havia traído. Daí, que tudo se danasse... Que o mundo fosse sugado pelo buraco negro do universo, importava-se lá.
    Um dia, na cama, em desânimo profundo, viveu um revérbero da infância: a casa simples, os pais, o quintal aberto e cheio de plantas e frutos; e como membro da família, um cãozinho, o Bambino, a correr com ela na rua descalça.
    Bambino! Que cãozinho interessante, que se sentava e cravava nela os olhinhos de jabuticaba, querendo brincar... Bambino! – disse sem querer, como o dizia na infância, ao vê-lo na sua cama. Bambino? – voltou a dizer ao cãozinho que a observava do vão da porta. Bambino! É você?! – sentou-se na cama, espantada.
     Não. Não podia ser. Bambino  morava há anos e anos em  outro plano de vida... Então que cãozinho aquele que lhe puxava o lençol e o travesseiro, e que a tirou da cama para regar o jardim? Que cãozinho danado que a fez correr com ele pelo quintal?
    Vai Bambino, corra! Pega! É isso, garoto! Você não é o meu Bambino de criança, mas se parece muito com ele, viu? Vem, é hora do banho... Era a hora, mas de ela ter a vida de volta: o telefone insistiu, e do hospital lhe informaram que um rim a esperava.
   Um mês depois, que já cuidava do jardim e dos pássaros do jardim, e que contemplava o céu recamado de estrelas, sentiu saudade do cãozinho que se havia desaparecido. E no outro dia, que o buscou na vizinhança, nenhuma criança deu notícia de Bambino... Aliás, ninguém o havia visto ou ouvido; nem soubera da existência do cãozinho.
    Ué! – é ela de mãos à cintura no meio do jardim, cheia de saudade de Bambino, o cãozinho que a tirou da cama, e pasma com seu sumiço misterioso.


Ao meu amigo belenense Marco Aurélio Kunz

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Tuim Olhos Tristes

Era o menino Antônio. O Tonho. O Tuim.
Tuim, porque caía de amor por uns tuins que não saíam do pé de amora de sua casa. Casinha sem reboco, onde morava com a mãe; a mãe que não saía da cama com a morte do seu pai. Oh, Maria de Nazaré! – a cidadezinha se condoia. – Que é da vida deles, ó, Mãe? O Tuim sem pai... E como são tristes os zoinhos de Tuim!
    Arranjavam a vida: a mãe, embora doente, se secando a cada dia, pegava pra lavar, passar e encerar. O filho, guerreirinho de mão cheia, limpava quintais e cuidava de plantas. Era o que Tuim sabia fazer com carinho.
     Era vírgula, porque um velhinho, um mudo e surdo e pedinte, lhe deu um engraxate. E Tuim, que não sabia o que era um abraço, afora o da mãe, sentiu com gratidão o peito do velho amigo se chocar com o seu. Foi esse o seu primeiro dia no ofício de lustrar calçado, e o último sobre o chão do pobre velhinho.
     Ô Tuim! Engraxa aqui, ó! Ô Tuim, vem cá! Ô Tuim, passa lem casa! – era a cidadezinha, condoída. Oh, Tuim! – era a mãe, na cama, vaidosa por ele custear e cozer as suas sopas. Sinto tanto orgulho de você, filhinho!
     Um dia, que Tuim dava o de-comer aos tuins, alguém chamou à porta. Era uma jovem senhora da cidade grande, que ali passaria as férias com o filho: Sua mãe está? Ela pode lavar e passar e encerar a minha casa?
    A mãe, não. Mas ele, sim. Era um recurso caído do Céu, que a mãe disse ser ajuda de Nossa Senhora, visto que não havia calçado para lustrar, naquele dia. Você?! – a senhora se espantou. – Você tem quantos anos? Uau! Meu filho tem a sua idade...
     Abre  isso, revira aquilo,  a jovem  senhora  não encontrou o dinheiro  que  trouxera  na viagem. Assim, pagou ao Tuim pelo serviço com o que tinha na bolsa, lhe deu roupas que o filho não queria e disse: Diga a sua mãe que irei vê-la, menino dos olhos tristes. Eu sou médica.
     Aconteceu que o verbo ir mudou de sujeito, posto que Tuim, daí a pouco, voltasse à senhora com um embrulho na mão. Estava nos bolsos de uma calça, senhora – disse Tuim Olhos Tristes, ao entregar-lhe o dinheiro sumido.
     Hoje, a procissão se desliza pelas ruazinhas, à boca da noite. O nome de Tuim e o de sua mãe, que se recupera num hospital da cidade grande, está na prece cantada. Agora, se você se relaxar e fechar os olhos, você verá a procissão a entoar o cântico à Maria de Nazaré: Aaave-aaa-ve-aaa-ve Mariiiia! Viu?



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O escuro que ela carrega

Na sala à meia-luz, e as horas indo pro meio da noite. Frequente desalento. Corpo cansado tal qual a árvore cujas folhas teimam em resistir ao inverno. O rosto caído nas mãos indicia o espírito preso no escuro da recaída com sabor da falta que ele lhe faz.
Ele se fazia na canção da primavera que embala a vida, o espelho dos seus planos e a fonte do seu riso. Viviam o amor impermisto, livre das farpas disso e daquilo, e em que o pedido de perdão era algo desconhecido. Amor sem promessas e contexto do passado, pois era do agora – tanto que nada existia para eles fora da aura desse amor que os fazia brilhar.
     Agora, a falta que ele faz é o escuro que a impõe a deitar nas mãos o rosto e sofrer pelo choro segurado. Ah, se pudesse abrir a janela e desatar a gana de chorar! E se pudesse gritar o nome dele, e se o grito pegasse eco, e se o eco o levasse pro mundo, precedido de uma frase vulgar... Uma frase que estilhaçasse o desalento que se cria num momento assim; uma frase vulgar assim: “Que se dane o mundo!”.
     Não. Não se pode gritar, e todo cuidado é pouco para que o choro não entorne do seu poço. Não. Todo soluço é contido, pois há um homem a fazer leitura à luz do abajur da sua cama. Um homem que a espera e que puxa o lençol para recebê-la. E assim que ela, carregando o seu escuro, se deita voltada para a parede, encolhendo as pernas e fechando os olhos, ele a cobre e, pacientemente, lhe beija o rosto: “Durma bem, amor”.
   Na cama, à meia-luz, e as horas indo para o claro do dia. Frequente desalento. Corpo cansado tal quais os olhos que vararam a noite, fisgados ao teto. Ela está quieta, dominada pela pedra do desalento que a falta que ele faz rolou sobre si. Está quieta e não sabe que, a umas quadras dali, alguém, em estado mediúnico, assistira ao espírito do homem que lhe faz falta chorar de amor por ela, ao lado dela, no momento em que ela se via na sala à meia-luz, e as horas indo pro meio da noite.




sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O raminho em flor do menino Joca

Foi ao som do “Conta! Conta! 1, 2, 3 e Conta!”, que a Professora entrou na classe. E mais: a turminha só se deu pela sua presença quando ela, erguendo as sobrancelhas, quis saber que “conta, conta, 1, 2, 3 e conta”, era aquele.
Ah, mas o  Tinim, menino  de remoinho na testa e afiado  que  só  ele, palavras da Professora, quase não a espera perguntar o que era aquilo: – É a Laura, fessora, que começou uma historinha e não quer contar...
    Não deu outra: a Professora  deixou suas coisas na mesa e ó: Ô, Laura! Conta, Laura! Aí a Laura, que sabe tudo e mais um pouco, pôs todo mundo sentado no chão e em roda, com a historinha “O raminho em flor do menino Joca”. Onde ela aprendeu? Hã! Disse o Tinim que foi com um tio dela...
      Depois do “bem, foi assim”, Laura esticou a historinha. E na historinha, o menino Joca, no dia de N. Senhora Aparecida, que tinha cântico na igrejinha, pulou mais cedo na cama da mãe.
    Abraçado à mãe, Joca disse que havia sonhado com seu pai. A mãe, alisando-lhe o cabelo, quis falar sobre sua separação conjugal, mas mudou o assunto para o ensaio do cântico das crianças, naquela manhã.
     Joca insistiu, a mãe cedeu – porque é manteiga ao fogo o coração de mãe – e ele foi contando que viu seu pai num campo, a procurar um raminho em flor. Ia de lugar a outro e, sem encontrar o raminho, lágrimas lhe brotaram.
    Era estranho. Joca via um raminho florido, mais à frente, mas não podia ajudar o pai a vê-lo. Era estranho. Joca via o pai; mas o pai não via-o. Então ele fechou os olhos e se pôs a rezar para que o pai encontrasse o raminho em flor.
     Aí... Ah, aí! Aí que ele abriu os olhos, e o pai tinha acabado de colher o raminho em flor. O pai passou por ele, sorrindo e beijando o raminho, Joca esticou o braço para lhe tocar, mas nada. Acordou, nesse instante.
    Agora, que Joca e seus amiguinhos ensaiavam na igrejinha o cântico a Nossa Senhora Aparecida, eis um vulto de homem à porta e, daí, seguindo à frente do claro da manhã que invadia a igrejinha.
   O cântico parou, e as pessoas se voltaram  àquele homem que adentrava a passo lento. O cântico parou, mas recomeçou depois que Joca correu e abraçou o homem pela cintura. “Pai!” – Joca disse, chorando.
     Emoção maior  se deu quando o pai tirou do bolso um raminho em flor e o ofertou a sua mãe. Estranho, mas aquele raminho era o raminho que Joca havia visto em sonho... Bom, do final feliz fica o berro que Joca soltou: “É esse! É esse, o raminho em flor que vi em sonho... É esse, sim!”.


À Professora Ana Luísa dos Santos, no distrito de Jurupema.


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Aluga-se

Mãos enfiadas na jaqueta e olhando pra calçada até a confeitaria. Isso, todo dia e a hora em que a estrela da manhã se recolhe: pouco antes das 6h. Se se atrasasse, Analuísa, a balconista, entrava em colóquio com seu relógio do pulso:
Ah, o que há, hein?  Também você  tiquetaqueia  muito... Se ele se demora,  e  que chega, você  deveria parar... Parar de tiquetaquear e dormir; como as estrelas que, já indolentes de tanto piscar, garram no sono... Aliás, o tempo deveria parar.
      Mas ele chegou. Com a  aura do  inverno, mas chegou. Ele não faltava às compras matinais; como não falhava o remoinho em Analuísa, agitado pela sua presença. Mais: Se esse it se fizesse em voz, freguesas e confeiteiras se estilhaçariam de despeito, ao ouvirem: olhos nenhuns o olham como os olhos de Analuísa.
    Embora  ainda não tivessem  seus flertes  o sabor ao gosto daquele homem, Analuísa  juntava os  pedacinhos  de tempo com ele, à  espera que o cupido, na  sua maestria,  um  dia fizesse deles o palco da  sua alma; o palco do qual  seria  ele a ribalta. Que esperança! Um dia, e outros dias, o sonho em vão: ele desapareceu.
    Dois andares até o apartamento lhe pareceram um degrau. A porta entreaberta, a anunciar que o dia entrava por janela descortinada, animou Analuísa a encontrá-lo. Qual o quê! O desarranjo, um papel escrito, caído ao pé do sofá, com texto não enviado, encheu-lhe o peito de vazio.
       Leu:

Volte! Não me deixe. Não me abandone. Esqueçamos os golpes dos porquês. Sol há de se fazer, se dos nossos momentos algum insistir na neblina. De corações dados, abriremos ao tempo um caminho, caso ele volte a teimar em se perder para nós. Ainda é vez de nos fazermos nuvens de uma chuva que cairá sobre o nosso amor como pérolas dos golfos do mar. Volte! Tento pensar e pisar seus rastros, mas eles se diluem... É como estar na areia sob o vento que os apaga como borracha às palavras. Escrevo-te, mas nem o vento sabe aonde levá-las a ti. Ao primeiro gesto da manhã, eu tenho dela a estrela e a moça dos confeites, que me dá o seu olhar. No mais, sou eu; no nada. Volte! Não me deixe. Não me abandone.

     Um degrau abaixo lhe pareceu uma escadaria ao centro da Terra. Antes de pisar o próximo, Analuísa se apoiou no corrimão e olhou, por instante, à placa pendurada na porta do apartamento, como a dimensionar o seu sentido: “Aluga-se”.



sábado, 21 de setembro de 2013

Os sapatos do Menino 84

Que aquele magricela de pés no chão, roupa acanhada, a de ver a Deus, e olhar de um cãozinho com saudade, pisou na sala de aula, cada criança quis tê-lo sentado do seu lado. Mas a professora... Crianças! Vô Patrício vai-se sentar aqui, pertinho do quadro, porque não enxerga muito bem.
    Vô Patrício, ou Menino 84, por causa da sua idade, virou o tchã. À hora da merenda, as crianças preferiam sua historinha ao arroz-doce; faziam roda. E que uma professora disse ah, eu vou entrar na roda, as outras, ó, atrás dela.
    Não demorou  e  as  crianças se deixaram  do Saci, da  Narizinho  e Vovó Benta, tanta era a ternura que escapava do Menino 84. E que ele já escrevia de carreirinha, eis a novidade: o concurso “Quem escreve o melhor texto?”. O prêmio? Um caminhãozinho de plástico e grandão, ou uma boneca que falava ma-mãe.
    O lugar, Céuzinho, entrou em alvoroço. E as mães, aos filhos, então? Ó, escreva direitim; bem bunitim. E a professora, a jogar lenha na fogueira? Quem será que vai levar o caminhãozinho ou a boneca, hein? Quem será!
   Quem será que foi o menino Juca, o  vencedor. Mas aí  questá: enquanto o caminhãozinho não chegava de tal cidade, o povo de Céuzinho tinha na ponta da língua o texto de Vô Patrício. Só se falava nisso:

Vim menino, coisa do mato. Fui cabo d’enxada, banho de córgo, barriga-d’água, pé na enxurrada. De um tudo: até ‘sobio de passarim nas matas; ‘sobio cantadô. E vi de um tudo: “arma” penada, facho de fogo na serra... Mas fui meu benzedô.
Vim menino, coisa de taipa. Fui jão-de-barro, barro e capim. De um tudo: lida de sol a sol, numa espera sem-fim. E vi de um tudo: gente de pé no chão, a sumir nos confins. 
Ora sou d’alegria, que nem ver no circo o paiaço. Sou de livro e caderno; não tenho a vida no laço; sou do viver... Vim menino da taipa, bicho do mato, é vero; mas ganhei um mundo no escrever e ler.

    Aí, à hora da entrega do prêmio, Juca vai e repassa-o a Vô Patrício: Toma vô, é seu. Mas o velhinho o devolveu: não que meu tempo de caminhãozinho tenha-se apagado; não. Mas eu queria era o prêmio de ter meus pés morando em sapatos...
    Sabe o silêncio, aonde se secou um  corguinho? Foi esse o que se fez na escola. Mas a professora o quebrou, cortando lágrima: Assim seja, Vô Patrício!
    Diinhas  depois,  ó  o  Menino 84 de sapatos, pelas  ruazinhas de Céuzinho!



sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O companheiro Château de Pibarnon

CHEGOU e ficou de bobeira até se entregar ao sofá. Antes, de posse de uma safra antiga do Château de Pibarnon, tentou a TV; porém nada. Também, achava que umas bicadas no Château lhe dessem o start para entrar de sola numa conversa voz-a-voz, ao celular; porém nada. Recuou. Mesmo com três ou quatro tombos do Château na taça, a coragem foi pela mensagem: olha, eu não vou mais ficar-te esperando. E foi rasgando o verbo: não vou deixar que meus sonhos, minha terceira vida, se percam, na tentativa de te encontrar. E mais: aquilo, de o coração dar papilotes no seu nome, fazendo-o vibrar nos meus lábios, a ponto de ele me escapar à toinha, acabou. Saiba que, agora, e não é porque estou de coisa com “mon com.pa.gnon Châ.teau”, que não dá sinal de me deixar, agora eu tenho as rédeas de mim. E o tchã de tudo, que você não sabe, é que não vou mais chorar por você. Não, porque não vou mais pensar em você. Isso está consagradíssimo, na minha cabeça. Eu já domino meus sentimentos... Está aqui “mon com.pag.non” Château que não me deixa mentir. Meus sentimentos estão para mim como o eme está para as costas da minha mão. “Bien? Est-ce clair?”. Agora é assado, assim. Uma coisa, porém, eu devo confessar: eu te amo. Arre! Precisava dizer? Você sabe disso. E isso é o que diz, entre uma batida e outra, meu coração. É ou não é, Château? O que sai de entre uma batida e outra do coração é o que conta. A entrelinha do tum-tum é algo assim... É a coisa tal, entre a gente. É o que faz a gente lascar, sem hesitação, o “não me vejo sem você”. Mas eu não quero você. Isso está consagradíssimo, na minha cabeça. No entanto, eu tenho o direito de viver, me vendo... E sem você, eu não me vejo. É ou não é, Château? (SILÊNCIO) Bem, o som irremediável do fim deste caso bateu no apê vizinho: Quem é que pode ter quebrado garrafa hora dessas, mais de meia-noite? – zangou-se a vizinha. E a zangada vizinha não o soube como não soube que a irmã de sua vizinha encontrou-a dormida no sofá. E, num canto, reduzida a cacos, a digna de relicário garrafa vazia do Château de Pibarnom dedurava – o que o celular de certo homem armazenava em voz – como a noite havia sido para Anamaria.


Na visita do baterista-compositor Arthur Kunz, da Banda Strobo. Dedicada a esse músico excelente. 

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Outros passarinhos do bosque

Esta historinha vai pra minha amiguinha Eduarda Amaral Campos Alves, a Duda, e para sua madrinha Mariana, a Naninha.


Num dia alegre, dia do casamento da raposa, em que o sol brincava de diamantizar a chuvinha tão fina quanto cabelo de milho, a menina Duda chegou, de mão com sua madrinha, à casinha de um vozinho. Elas foram visita-lo e Duda levou-lhe uma mudinha de gerânio. “É florzinha do bosque”, disse Duda.
      O vozinho cheirou a flor, puxou Duda a si, e, enlaçando-a com o braço frágil que nem perna de passarinho falou “Oh, menina linda! Esta florzinha é do bosque? Ah, lembrou-me uma historinha de bosque... De crianças, passarinhos e bosque. Vou-te contar essa historinha”.
    O velhinho  a contou ali mesmo, na varanda da casinha. Ele contava e,  que nem a Duda, tinha os  olhinhos  dormidos numa roseira:
      – Havia  um bosque do lado  da casa de  um menino. O bosque  era cheinho de frutas, flores  e passarinhos. E ali, mexendo numa flor e outra, numa plantinha e outra, tal os passarinhos a mexer numa fruta e outra, havia uma menina.
    Um dia, a menina pegou o menino olhando para ela, sobre o muro. Pensa que ela saiu correndo a gritar “mãê?”. Que nada! Ela fez foi acenar ao menino espião, convidando-o para brincar.
   O menino saltou ao muro para um berçário de flores, plantinhas e passarinhos. Eles se apresentaram como Júlia e Guim, e à mesma hora virou uma festa, de brincadeiras. A primeira coisa foi o balanço; e, com os dias, Guim embalava o balançar de Júlia só pra ver o cabelo dela virar um leque no ar.
    Ih! Brincaram muito. Guim fez-lhe bambolê de cipó, bilboquê de latinha, e eles formaram mudinhas de gerânio e outras flores. Enquanto passaram um tempo no bosque, protegiam os ninhos e aprenderam o canto de alguns pássaros. Aliás, eles se fizeram noutros passarinhos do bosque. Mas isso até o dia em que Guim chegou da escola e cadê Júlia? Júlia se mudou dali.
    Nessa parte, o silêncio, que nem o que se faz ao ver-se quebrar um ovinho de passarinho, tomou conta deles. O braço frágil do vozinho descansava sobre os ombros da Duda, e seus olhos dormiam na roseira. Os olhos de Duda também dormiam na roseira, e ela segurava a leve mão do velhinho.
    Ficaram assim até que Duda quebrou o silêncio:
    – Ele não viu mais ela?
    – Sim, Duda, ele  a viu. Guim foi  herói, só vendo. Mesmo com onze anos, ele enfrentou as ruas da cidade até o dia em que Júlia o gritou, atrás das grades da sua casa...
    – E eles se viram mais?
    – Sim, Duda, eles se viram mais... Aliás, eles se veem sempre.
    – É? E cadê eles?
    – Bom,  vamos  fazer uma  coisa:  entre com  sua  madrinha  até  o quarto e dê, também, o meu segundo beijo de hoje na vozinha Júlia... Ela está descansando. Vai. Vai lá!
    Duda  saiu  devagar de  sob o  braço frágil  do  vozinho e, antes de entrar na sala, olhou para trás e respondeu ao sorriso do Guim.






segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Emoções do vira-latinha Pitoco

– Pitoco! Passa! – a mãe de Pedrinho surgiu na varanda, apontando pra sua casinha. Ela ralhou porque Pedrinho estava, ó, até aqui, de deveres, e que não teria brincadeira, naquele dia. Então, Pitoco se foi pra casinha e daí ao portão e daí ninguém mais o viu. Oh, Deus! Roubaram o Pitoco. E agora?
Agora, feche os olhos para o coração ver Pitoco à carroceria de uma picape, embaraçado numa rede. Há um homem de cara ruim com ele, e Pitoco se apoia à tampa, olhando a tudo que passa até chegar à nova morada.
   Pitoco não sabia o que era pior: se a comida, ou o menino sem graça que dizia ser seu dono, ou a saudade de Pedrinho. Então, numa noite, que eles apagaram as luzes, Pitoco, num salto descomunal, fugiu do cativeiro.
   Sob a lua cheia, o grande amiguinho de Pedrinho  alcançou a estrada. Indeciso, ele olhou várias vezes  pros lados. “Ah, São Chiquim! – seu coração, por certo, está pedindo – Vai, São Chiquim de Assis, mostra-lhe o caminho...”.    
    Mostrou? Sim! E Pitoco, ó, abriu a venta.
   Abriu a venta sob a guarda de São Chiquim. Carros e caminhões passam a toda. E os outros animais, a rondar? Lobos, onças, répteis, cachorro do mato... Mas Pitoco não parou.
   Como um cãozinho consegue tanto fôlego, tanta energia? Não se sabe. O que se sabe é que seu coração, por certo, está dizendo: “Vai, São Chiquim de Assis, dê mais força ao Pitoco! Corra Pitoco! Corra mais, mais, mais!”. 
   Seu coração é tão bom que lhe está trazendo lágrimas, só porque Pitoco se deitou ao portão da casa dele e de Pedrinho, já dia claro. E você vê, também, a menina Cidinha, vizinha de Pedrinho, chamar ao portão:
   – Pedrinhô! Ô Pedrinhô!
   Pedrinho e sua mãe saíram aos gritos de Cidinha. Pedrinho ainda disse a ela: “Que doidice é essa, hein Cidinha?”. Que doidice, a da Cidinha? Ele é que não sabia que seu amiguinho estava deitado junto ao portão, muito cansado.
    Pedrinho nem viu que saltou à calçada e tomou Pitoco nos braços. Daí... Bom, você vê o caderno de Pedrinho sobre a mesa, não vê? Vira páginas e lerás a oração que Pedrinho escreveu, durante os dias em que seu amiguinho esteve ausente: “São Chiquinho! Traga Pitoco de volta pra mim”.
   A mãe de Pedrinho, que leu a oração, chorou. E mais: que viu Pedrinho e Pitoco a brincar no quintal, seu poço de lágrimas correu-lhe no rosto. “Ah, que me importa chorar?” – ela disse – “Eu choro, e o que é que tem? Estou nem aí...”.


Ao meu saudoso amiguinho Pitoco, que, por certo, corre e brinca em algum lugar do outro Plano de vida.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Ventinho de Chuva


Esta historinha é da minha estrelinha Gabriela Ferro Oliveira 



São quatro os meninos sentados no chão da sala: Dorinha e Deco, Duda e Dinho, escadinha dos oito aos onze anos. Brincavam de figurinhas do Sítio do Pica-Pau Amarelo? Parece. O certo é que dava encrenca a todo o momento.
  Da cadeira de balanço, às voltas com óculos, novelos e agulhas, Vovó Lucília os espiava sem entender nadica. E em nova encrenca, ela disse: “Ah, lembrei! Lembrei-me de uma historinha, a Ventinho de Chuva... Já contei esta?”.
    – Nããão! – eles responderam juntos, rodopiando para o lado da Vovó.
    Aí, pronto: a Vovó deitou os óculos e as coisas no colo, passou as mãos no rosto e  ó, tome historinha Ventinho de Chuva.
    Ela contou que, num dia  lindo, em que as  estrelas ficaram acordadas pra passear pelo azulão do céu... Daí, tudo se acinzentou. Ficou feio; cinzentão. Além disso, ouviu-se um vento esquisito, nas matas: “Vuuuxiiivuuu!”.
    Aí havia uma casinha de pedra. E que a Vovó da casinha abriu um tiquinho da janela pra ver o mundo, viu a Teca, uma pombinha, encolhidinha, ao terreiro. Teca disse: “Oh, Vovó! Deixa-me entrar, Vovó... Tá frio demais”.
   Ih! Depois de Teca, o Guazinho, o filhote do lobo Guarão; a Vita, uma coelhinha... Quem mais? Ah, o Preguim, um mico guloso; o Zeca, um papagaio exibido de dar dó; e até a Rosita, uma florzinha do campo que se perdeu da sua mãe.
    Ainda bem que  a Vovó tinha de um tudo: água nos potes, lenha de fogo, arroz e feijão até. Mas os cachos de banana, o Preguim, guloso que só ele, ó... Com casca e tudo.
    Aí, numa manhã, o vento Vuxivu sumiu. A Vovó disse: “Gente, agora, parece, é um ventinho de chuva que está vindo... Estão sentindo o fresquinho?”.
    – É mesmo, Vovó – disse o Zeca, tagarela, se balançando pro lado dela.
    Aí, que saíram, olha só o que viram: uma estrelinha amarela, oh, coisa linda, a puxar o ventinho de chuva. E mais: a estrelinha, que viu Rosita, voou até eles e disse: “Oi florzinha, meu nome é Gahbi. Vem puxar o ventinho de chuva comigo, vem?”.
    Bom, Rosita se foi com a Gahbi, puxando com ela o véu da chuvinha, e as cores brotaram no mundo. Só que houve uma coisa: a estrelinha Gahbi não mais puxou o ventinho de chuva, e a florzinha Rosita sumiu da casinha da Vovó...
    Nessa  hora, Vovó Lucília  fechou a  historinha, comentando: “A estrelinha Gahbi pediu ao Pai-Mãe das Estrelas para nascer menina na Terra. E ali, pertinho daquela Vovó, nasceu uma menina – oh, menina linda! – com o nome de Gabriela. E no quarto dessa menina nasceu uma florzinha... O que vocês acham disso?”.
    Dorinha, Deco, Duda e Dinho responderam sem pensar: “É a estrelinha Gahbi e a florzinha Rosita”. Em seguida, pediram outra historinha à Vovó Lucília. A Vovó disse “Depois conto”, e pintou encrenca no meio da sala.




sexta-feira, 26 de julho de 2013

Dinhocó


Céuzinho!
Céuzinho era assim: até duas dezenas de ruazinhas dormidas no sossego, com calçadas floridas; a maioria de margaridas e jasmins. As casas, casinholas, tinham quintais assim ó... Um mundo, de grandes.
Céuzinho ficava numa colina... Quer ver? Feche os olhos para dar vez aos olhos da alma, e verá que Céuzinho se brotou numa mão em súplica. Viu? Verá, também, a lua cheia a banhar Céuzinho, pois, dizia-se, lá sempre era tempo de lua cheia.
    Ainda com os olhos da alma, você passa pelas ruazinhas, sentindo culpa por pisá-las, e vê onde moram as gentes. Está vendo Vó Aninha no alpendre a lhe abrir um doce sorriso? Pois é, a casinhola de Vó Aninha é a segunda maior, por ser, também, escolinha.
    Um pouco, e verá a outra casinhola maior, a de Vô Nico, que é, também, hospital; Hospital do Céu. Aí você já passou por algumas vendinhas e biquinhas d’água; e, ao sair da pracinha dos Beija-Flores, verá o fim da ruazinha onde está fincada a morada do menino Dinho, o Dinhocó.
    Dinhocó!
    Dinhocó  era  assim: não se dava com as outras  crianças, ria  à toa, e nem picada de marimbondo lhe doía. Arredio, gostava da solidão. Ficava de cócoras, ao olhar passarinhos, e imitava o Saci, ao andar. Não lia e escrevia direito, e gostava de montão dos cãezinhos ― um deles, o Totó, o cãozinho de umas das gentes que caçoavam dele.
   Caçoar, as gentes caçoavam do Dinho, que, por gostar de andar na chuva, foi chamado, no começo, de Bocó. Daí nasceu Dinhocó. E foi justamente num dia de garoa que o prazo da vida de sofrimento do Dinhocó venceu.
   Isso, porque o Céu fez com  que um carro  se perdesse e passasse por Céuzinho. Esse carro, que sangrava as ruazinhas de Céuzinho, causando pavor, atropelou o cãozinho Totó e sumiu no mundo. As gentes, às janelas, exclamaram a sua dor: “Oh, Deus, tadinho do Totó!”.
   Eles viram Dinhocó correr e tomar o cãozinho nos braços. Mas ninguém viu um vulto de mulher, como que descido do Céu, misturado à garoa, dizer a Dinhocó que colasse a boca na boca de Totó e lhe enchesse o pulmãozinho de ar. “Sopra, sopra, sopra Dinhocó! E amanhã saberás escrever a sua historinha” ― o vulto completou para se sumir no Céu.
   Daí, que Vô Nico chegou para levar Totó ao Hospital, já não foi preciso tanta urgência: é que Totó respirava normalmente, de olhos cravados nos olhos do amiguinho Dinho.
    Bom, se você olhar, daqui a pouco, com os olhos da alma, verá que Dinho é assim: convive muito bem com os amiguinhos, é o melhor aluno de Vó Aninha, e sabe como ninguém inventar historinhas. E sempre, claro, sem que ninguém veja, porque ninguém iria entender, ele joga o olhar para o Céu e abre um risinho como quem abre um risinho para alguém muito de dentro do coração.


Esta historinha vai para Izabel Christina, pela sua benevolência para com os cãezinhos das ruas de Avaré.



sexta-feira, 19 de julho de 2013

Nina, Vô Zim e o ciúme da Vovó

 Isso a vovó contando: 
― Chamei o Zim, pra ver se ele tinha macetado a taturana do pé de figo, que o figo já pedia pra virar doce, e eu não chego ao pé de nada com taturana nele, mas é nunca; então chamei o Zim, e cadê o moleque do Zim?
  ― Uai,  Vô Zim se some, assim? ― o moço quis saber, ávido pela histori-nha.
  ― É assim: se os óclos não brincam de esconder com ele, ele está ao quintal, imitando passarinhos, colhendo florzinha, ou lendo livro na sua cadeira de vai e vem. Mas nesse dia estava ao quintal, miando e estalando os dedos pr’uma gata.
   ― Ai, ai, ai! Gata, gata, ou gata moça? ― o moço disse, rindo.
   ― Gata bicho, menino. Já viu gata gente? Hã!
    ― Tá. Mas, e aí, vovó?
   ― Aí  que meu  sossego ó...  Babau!   Não há de ver que a gata veio e deitou a carinha metade escura, metade amarela na mão dele? Ara!
    ― Vovó... Esse ara não quis dizer ciúme?
    ― Doido, menino? Eu, ciúme do Zim com uma gata?
    ― Tá. Mas, e aí, o que se deu?
   ― Deu que aonde ia o  Zim,  a gata ia. Ele a chamou de Nina. Arranjou escova, pente, e até espêio pra ela... Ara! Mas meu xampu não; amoitei bem amoitado.
    ― E  daí?
   Uai, com diinhas Zim batia no ombro, Nina saltava no seu ombro. Erguia o pé, ela se enganchava no seu pé. Quando eu vi, ele já lia pra ela. E mais: arrumou o quartinho dos fundos pra ela. Mas eu ó... Nem aí. Ara! 
     ― Vovó, vovó...
    ― Mais diinhas, e pegou a passear  com ela de jipe. Dizia: “Uma voltinha, Nina?”. E ela, derretida: “Miaaau!”. Ara! Eu vivia dizendo que já não tinha carta pra guiar, e que a polícia ia prender tudo. E isso era melhor que estar aqui, no hospital...
     ― E como foi o  acidente, vovó? 
   ― O jipe tombou... Hoje, cedinho. Eu estava na casa de nossa filha, quando meu netinho Pedrinho disse: “Mãeê! Vovóó! É a Nina saltando na porta! Olha aqui!”.
     (Pausa)
    ― Chora não, vovó. Chora não, que eu também choro ― disse o moço, ao vê-la enxugar o cantinho dos olhos.
    ― Tá. Então eu espiei, e era mesmo a Nina. Nem vi que perguntei: “Nina, cadê o Zim, Nina?”. Ela entendeu e correu rumo à estradinha de casa.
    Nós a seguimos, e lá estava o jipe, tombado no mato, e Zim caído acolá, desacordado.
     (Pausa)
    ― Chora não, vovó. Chora não, que eu... Ih, vovó! Vô Zim está vindo ao corredor, e andando! Ih! Nina é aquela gata enganchada no ombro dele, vovó?!
     ― Sim, é sim!  ― ela foi ao  encontro dele e  o abraçou com  Nina e tudo.
   Daí, perguntado sobre a gata, o médico disse: “Agora é que sei desta bonita menina, salvadora de vida... ― correu a mão na Nina. ― Ah! Bem me pareceu que algo se mexia aos pés de Vô  Zim, debaixo do lençol...”.
     Bom, diz a boa língua de Pedrinho que, hoje, semana depois da coisa toda, a vovó destrancou seus xampus a Nina. E mais: ela banhou Nina; mas olha só: Nina sequinha, penteada e cheirosa, vazou dela pra ir saltar ao ombro de Vô Zim. Ara!


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Do diário de um passarinho

 Esta historinha é da princesinha Ianie David Céo.



O meu nome é Cã-te-vi. Minha mamãe foi canarinha; meu papai, bem-te-vi.
   Aprendi a voar e a escrever com Vovó Coruja. É que meus pais morreram envenenados numa roça quando eu era petitito. Eu sei também falar, cantar, sonhar e sentir saudade como qualquer passarinho ou criança.
    Escrevo meu diário em passaredo, a nossa língua que as crianças entendem, num pé de Amor-da-folha-grande, onde eu moro. É que a folha desse pé de Amor não cai, e nada, nem o tempo, desmancha o meu escrito.
    Bom, já que toquei em saudade, falarei de uma que bate com meu coração.
   Tudo começou quando Vovó Coruja nos avisou da festa de São João das Crianças no ranchinho de Vó Isaura, aqui perto. Então eu ó, pac-pac-pac, bati o bico de achar bom, e fui-me lavar na Cachoeira das Borboletas.
    Passei a cortina de água pra lá e pra cá, e isso me deixou mais limpinho que os raios do Sol, e voei para o ranchinho de Vó Isaura. Lá eu fiquei num pé de amora, à espera da Dança das Quadrilhas. Mas eu nem quis saber da Dança... É que Vó Isaura anunciou: “Crianças, a Princesinha Ianie está chegando!”.
    Oba! Princesinha?!, eu disse, me arrumando no galho da amora. Cocei o bico e a cabeça porque nunca tinha visto uma princesa. Ouvia Vovó Coruja contar historinhas delas, mas ver uma princesa de pertinho... Nem sei se dou conta de ver, pensei comigo.
   Fiquei ansioso, trocando os pés no galho, me coçando debaixo das asas e repetindo: será que ela é linda, como nas historinhas da Vovó? Daí eu comecei a sonhar: eu no ombro dela, e ela dançando a Quadrilha. Nó! Que lindo!
    Acontece que, de tanto sonhar, me veio uma zonzeira e eu ó... Praft, caí do galho. Caído, e com as vistas embaçadas, ouvi um menino gritar: “Um passarinho caiu ali!”. Daí, com eles em cima de mim, ouvi outro: “Vamos tirar as peninhas dele?”.
   Em  seguida, acho que  fui  ao Céu dos Passarinhos ao ouvir a linda  Princesinha dizer: “Epa! Esse passarinho é meu! Ele é meu e pronto!”. Então, ela me beijou e pediu a São Chiquim de Assis por mim. E que São Chiquim me ajudou, eu quis voar, ou fingi querer; mas ela me segurou e me pôs no seu ombro para dançar a Quadrilha. Ô que bom!
    Ai, ai! Acontece que cair do galho, estar colado no rosto dela e me segurar no seu ombro, tudo isso foi sonho. Vi que sonhava porque Vovó Coruja chegou e disse: “Ei Cã-te-vi, tá sonhando, passarinho? Vamos embora pra casa que a festa já acabou...”.
    Vim-me embora, mas não dormi. Fiquei pensando na Princesinha... Pensando ser seu passarinho, como ela disse no meu sonho. E até que chegue o próximo São João das Crianças, no ranchinho de Vó Isaura, vou vivendo como diz o seresteiro Rouxinol: “A gente é feito de saudade e esperança”.





quarta-feira, 26 de junho de 2013

O anjinho Mim e o velhinho Sô Ridico

Para Yasmim, Mim, Mimim como diz seu Vô.



Mim e suas priminhas. Brincavam de boneca, ao fundo do quintal. Quando é fé, um bandinho de Sofrês passou para o quintal de Sô Ridico: vruuuruuup!
Mim colou o ouvido no muro: não houve tiro de espingarda nem nada. E se não se ouviu nada, sinal de que Sô Ridico nem seu cãozinho es-tavam em casa. E se eles não estavam em casa...
    Mim subiu no muro, garrou o galhão e se aninhou no pé de jabuticaba. Tof, tof, tof!, era jabuticaba, cada bichona assim, estalando no céu da sua boca. E ela atirava jabuticabas às priminhas.
   Atirava, porque ouviu o “au!, au!, au!” do Espoleta, o cãozinho de Sô Ridico. Não bastasse o “au!, au!, au!”, ouviu o “xap!, xap!, xap!” das pisadas do velhinho rídico, que não dava fruta a ninguém.
   Ai, ai, ai, São Gabriel! E agora? Espoleta latindo, esticando o pescocinho para ela, e o velhinho embaixo, espingarda ao ombro. Boca cheia de casca, o corpinho grudado no galhão, ela viu os Sofrês voando longe, no azul do céu. Jeito foi pedir a São Gabriel, e o socorro veio: o velhinho voltou para dentro com seu cãozinho.
   Pense numa coisa boa pra rir, que ela saltou e caiu de bundinha no chão... Pense também em que ela virou, quando o velhinho bateu na porta, chamando a sua mãe... Uma estatuazinha? Uma pedrona de gelo? Pode ser, mas Mim foi às nuvens, ao ouvir o velhinho: “Dona, toma aqui jabuticaba do meu melhor pezão... A senhora deve gostar, e sua menininha também”.
   Ufa! Mas Mim nunca ficou livre de uma coisa: o sorriso escondido, zombeteiro, que Sô Ridico lhe dava, assim que ela passava para ir à escola. O sorriso era o mesmo que lhe dizer: “Pensando que não te vi, roubando jabuticaba? Hã? Ah, menininha bonita!”.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Um texto qualquer de Dorinha


A MENINA Dorinha está à mesa. Morde o lápis, olha o teto, se perde no relógio na parede: tic-tac, tic-tac. Olha para as unhas, esfrega a canela com o pé. A ideia está em branco; a folha também. O trabalho da escola, um texto qualquer, cadê? Ó Mãe Maria de Nazaré!
   Mãe?Mãe, a sua está também à mesa. Mãos estendidas, olhos grandes, fechados, e as rugas morando em volta.As rugas acham uma beleza, quando não pintadas”, Dorinha pensa. Se a mãe a ouvisse iria-lhe dizer: “Dorinha, as rugas também querem ser livres".
    Olha a mãe, morde o lápis e escreve.
  "Queria ter os olhos verdes e  grandes da minha mãe. As sobrancelhas largas e altas também. Queria ser a minha mãe, fosse eu grande, de tanto querer o que ela tem... O nariz fino e retinho, e a boca do jeito que está: sem batom. Boca bonita não precisa de batom, o vovô disse, um dia".
   Olha para as mãos da mãe, morde o lápis e escreve.
   "As mãos da minha mãe são estragadas. Também elas não se cansam. São fortes, mas nunca me bateram... Só me fizeram carinho. Queria ter as mãos da minha mãe, fosse eu grande, porque, eu acho, elas não são dos braços, mas do coração. Mesmo sem o gostinho das luvas e dos anéis, eu queria ter as mãos da minha mãe... Com essa aliancinha que meu pai lhe deu..."
   Quer tocar as mãos da mãe, mas recua. Olha para ela, e ela está quieta, quietinha. Pensa: “Minha mãe tá esquisita... Ah, mas agora eu me lembrei de que ela diz sempre que eu pareço com meu pai..."
   Morde o lápis e escreve.
  "Queria ter conhecido meu pai. Minha  mãe  diz que ele era muito inteligente. Então, meu pai ia-me falar de uma coisa que ninguém me fala, que é o porquê de eu sentir saudade dele sem nunca ter estado com ele. Um dia, vou escrever muitos cadernos sobre minha mãe e meu pai. Mas agora é um texto qualquer; trabalho que a tia passou".
   "Ah, mas a tia... Por que ela não passou desenho? Ontem, eu desenhei nuvens no retrato do meu pai. Minha mãe diz que ele nos vê por trás das nuvens. Então eu fiz nuvens ralinhas, que é pra ver meu pai olhar pra gente, atrás delas".
   "Mãe...Ô mãe!"
   Quer falar à mãe, mas ela não responde. Deita o lápis, toca as suas mãos, mas ela não responde.Daí se atraca com a mãe. Medo de a mãe ter... Mas a mãe dá sinal de vida e abraça Dorinha."Estava rezando, filhinha, e dormi. Desculpa. Fez o trabalho que a tia passou?"
   "Acho que sim... Fiz sim”, completa com firmeza. “Mas não te vou mostrar, tá?
   No dia seguinte, porém, a mãe e todo mundo da escola, e outro mundo de gente, saberia do trabalho de Dorinha pontuado com a nota 10. O que ninguém, mas ninguém saberia era do lápis carcomido que ela ó...


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Menino levado


―  Olha esta... Esta foto tem uns... Ah, uns... Setenta anos, ou mais. 
― Era a sua casa? 
― Sim. A pontinha da outra que se vê, era a casa da Clarinha. 
―  Vocês tinham a mesma idade?
― Sim. Coisa de 6 ou 8 anos. Um dia, Clarinha roubou retalhos da sua  mãe, e eu os roubei da minha mãe, porque elas teciam colchas de retalhos, e a gente foi brincar de Jane e Tarzan. Amarramos os retalhos uns nos outros, e fizemos o cipó. Daí, eu subi no pé de manga rosa, atei o cipó retalhado num galho, soltei o grito do Tarzan, “OuuuOuuuou”, e saltei. Que saltei, o cipó arrebentou e eu caí de bunda, em cima da Clarinha. Três galos cantaram na sua cabeça, e eu fui chamado, ou gritado, mais uma vez, de “menino levado” 
    ― Ah, ah, ah! Olha esta aqui... Uma cristaleira das mais lindas! Era a da sua mãe?
    ― Sim. Um dia, o relógio de parede suspenso sobre a  cristaleira, eu  pego  e subo nela para tirar o relógio da parede, desmontá-lo, e ver como é que funciona um tic-tac. Aí a cristaleira, que tinha um pé defeituoso, tombou-se sobre mim, e eu fiquei desacordado dentro dela. Os cristais ó, babau! Minha mãe gritou à mãe de Clarinha que um mau espírito havia derrubado a cristaleira, e que ela fosse ajudá-la a erguê-la. Lembro-me que, ao acordar, ouvi minha mãe se lamentar: “Sunga de lá, comadre, que eu não sei cadê o Tinim pra me ajudar... Nestas horas, ele some”. Ao bulirem a cristaleira, porém, viram minhas pernas de maçarico; e com três galos cantando na minha cabeça, eu fui chamado, ou gritado, mais uma vez, de “menino levado”.
    ―Ah, ah, ah! Nossa! E esse cãozinho lindo aqui?! Fazendo pose, o danadinho...
   ― Sim. Era o Pitoco. Um dia, nem é bom lembrar, morreu um velhinho lá... Amigo lá de casa e de todo mundo. Então minha mãe e meu pai decidiram de a gente ir velar o morto: fomos nós e o Pitoco. Acontece que o Pitoco não gostava de gatos, a não ser da Nina, que era nossa. Aí, que todo mundo rezava, Santa Mãe, uma gatinha apareceu; e, não tendo saída ao Pitoco, correu pra debaixo do caixão sobre cadeiras. Nem vi que gritei: “Pitoco! Não!”. Ai, ai! Que fui agarrá-lo, eu escorreguei e me bati no caixão... Nossa, o morto vazou do caixão e, disseram as rezadeiras, ele olhou pra elas com um olhão ó, e elas caíram na rua. Daí, meu pai e uns homens arrumaram o morto no caixão; e, com um galo no osso da face, eu fui chamado, ou gritado, mais uma vez, de “menino levado”.
    ―Ah, ah, ah! Ah, e essa? É uma procissão?
   ―Sim. Um dia... Deixa essa e as outras fotos para amanhã, minha velha namorada. É que já são... Ih, quase 11 horas! E como amanhã é meu aniversário... Falei-te que faço “Sete Sete” amanhã? OK. Então vem. Vamos aproveitar mais a nossa primeira noite juntos... Vem.
    ―Eta, menino levado! ― disse a vovó, de mão dada com o vovô, a caminho do quarto.